ENTRANDO EM TRABALHO DE PARTO
As contrações vinham aumentando a cada dia, já estava com mais de 39 semanas e conversava com a minha bebê que ela já podia nascer, pois estava chegando o carnaval, a data prevista e a pressão dos familiares e médico também crescia.
Na segunda feira fui à consulta com o ginecologista do meu convênio, Dr. Marcelo, que acompanhou todo o meu pré-natal, e ele quis fazer um exame de toque, para saber “se ia demorar ou não”. Logo de início resisti argumentando que como ainda não estava em trabalho de parto o exame era desnecessário, mas depois cedi pra não criar confusão. Resultado: colo do útero fechado, sem dilatação. Então, “não dá pra saber, né? Volta no dia 15″. Saí correndo para uma consulta em uma pediatra que possivelmente faria a recepção do parto, caso eu fosse para a maternidade. Uma demooora pra ser atendida, foi ali que entrei em trabalho de parto, agora sei, no dia pensei só que fosse cansaço, preocupação e o exame incômodo.
Mas a bebê estava muito agitada e as contrações, já constantes, estavam um pouco doloridas… mas muito leves… A pediatra não me esperou nem dar boa tarde, já passou uma lista de remédios caso isso, como aquilo, até complementação de leite ela passou! (fiquei pasma!)
Depois de uns 10 minutos falando sem parar ela soltou “Ah, nem perguntei se era seu primeiro filho, né? Você tem alguma dúvida?” E eu bem tonta, que na verdade estava ali era procurando uma indicação de um pediatra que pudesse acompanhar o parto na minha casa, perguntei: “como é a recepção?”
Besteira minha perguntar, depois de ouvir que “felizmente hoje a recepção é feita longe da mãe, e o pai também não acompanha porque tem uma hora, que se faz uma aspiração profunda, que normalmente é a hora que as pessoas passam mal”, eu é que saí de lá passando mal!
Quem assiste passa mal, e a criança??? Chorava pra minha mãe, “não quero ir pro hospitaaaal”…
Até dezembro a gente ainda achava que ia conseguir se mudar para Bahia, o Cauê falava que o bebê ia nascer no rio lá no meio da Chapada Diamantina e eu, “por favor, água quentinha”… Fazia apenas 20 dias que nós havíamos alugado uma casa, uma correria só… então, poucos dias antes tinha ido me encontrar com a Dra. Mariele pra conversar sobre a possibilidade dela atender ao parto na minha casa, particular… Depois de tentar me convencer a ir para o hospital que ela atende, concordou desde que eu arrumasse um pediatra para fazer a recepção. E eu entrei em trabalho de parto procurando o tal pediatra…
Cheguei em casa, muito cansada… nem quis ler um trecho de um livro que o Cauê pediu… dormi…
ENTRANDO MEEEESMO EM TRABALHO DE PARTO
Acordei pra fazer xixi, a barriga duura…voltei a dormir, acordei de novo, a barriga duuuura, xixi, tornei deitar… na sequência, pô, de novo? xixi, a barriga duuuuuuuura e um pouco dolorida e um sinal rosinha de sangue no papel higiênico… pensei: “dia 09/02 aniversário do tio Junior, é hoje!”, eram 4 e 36 da madrugada, não podia mais dormir! meu intestino começou a funcionar e fui cronometrar as contrações, intervalos de 3 ou quase 3 minutos, duração de 40 a 50 segundos… e já comecei a reclamar… o Cauê acordou: “o que é que você tá gemendo aí?” e veio a resposta: “vai nascer!”
Então pegamos as coisas e fomos pra edícula que tem no fundo de casa, coloquei o colchão no chão da sala que fica vazia para práticas de yoga.
Vimos o sol daquele dia nascer… Enquanto o Cauê arrumava o rodinho, limpava tudo, inflava a banheira eu revezava entre o colchão e o chuveiro.
A água quentinha batendo na lombar era um alívio para as contrações!
Quando eu achava que ia acabar com toda a água do mundo, ia um pouco pro colchão e deitava de lado, tentando descansar ou ficava de cócoras com os joelhos apoiados.
Eu achava que o parto seria uma festa, né? Queria alguém pra tirar fotos, minhas amigas, mãe… mas que nada, na hora não queria ninguém… me interiorizava mais e mais… E gritava também! Não fiquei inibida pra gritar, mesmo porque iria atrapalhar o processo, mas até a vizinha veio chamar, perguntar se precisava de ajuda…
O Cauê foi tentar encher a banheira com a água quente do chuveiro, mas ia demorar muito, então eu disse pra ele encher com a mangueira e ir fervendo umas panelas de água no fogão… Ele estava perdido, até foi regar as plantas… eu achei engraçado, mas queria mesmo ficar sozinha… então as contrações foram se intensificando (e os berros também)… o Cauê perguntou uma vez: “viu, não tá na hora de chamar a médica?”, e eu, “já já eu ligo, no próximo intervalo” (como se fosse novela, né?), daqui a pouco ele de novo: “não tá na hora de chamar a médica?”.
Quando ele perguntou pela terceira vez eu disse: “liga, liga pra ela”. Não tinha mais intervalo nem cabeça pra ligar… e falar no telefone ainda!
Fiquei pensando o que eu ia responder se ela perguntasse do pediatra!
Então ele ligou, duas vezes sem resposta… Na terceira ela atendeu e ele disse: “você pode vir ? Se não a gente vai pro hospital”… Eu já tinha pedido pra ele colocar o carro na rua, caso a gente tivesse que fazer uma remoção pro hospital, nessa hora ele deve ter pensado “ih, ela vai dar pra trás”! Ela perguntou como estavam as contrações, “uma atrás da outra e tô começando a ficar com vontade de fazer força”… Como é a sincronicidade! Ela tinha acabado de sair da natação com o bebê dela, não ia atender, passou na casa da mãe, deixou o pequeno com ela e emprestou o carro. Passou no hospital, pegou uma caixa de parto e rapidinho chegou em casa. Na hora que ela chegou ela me viu e disse “tá difícil, né”… A fase de transição é dose, viu… pra mim, foram os momentos mais difíceis mesmo… Ouviu o coração da bebê que estava bem e pediu pra eu deitar pra fazer o exame de toque. Deitar de barriga pra cima foi a pior posição! Era muito incômoda e a dor aumentava!
Felizmente estava com 9 de dilatação, quase total! Ufa, imagino que se ela dissesse que tava pouco ainda eu ia ficar muito desanimada… E ainda com a bolsa íntegra, mas logo ela rompeu acelerando o expulsivo. Já tinha mecônio, verde clarinho. A Dra falou que as contrações iam ficar diferentes e realmente, a vontade de fazer força aumentou. A Mariele perguntou do pediatra e eu só abanei a cabeça negativamente e ufa, ela disse “tudo bem”… Então ela perguntou da banheira, ali cheia, liiinda, brilhando na luz do sol… mas calcule, a água estava fria! Imaginei que o Cauê ao invés de colocar todas as bocas do fogão pra funcionar tinha colocado só uma panela e fervia, ia lá na banheira, jogava, enchia a mesma panelinha (hahaha) e agora, escrevendo esse relato eu fui perguntar pra ele e a resposta: “a gente não tinha tantas panelas assim”… ótima resposta, não é?
O NASCIMENTO
Verão, uma semana antes do Carnaval, pleno meio dia e eu ali debaixo de um telhado de fibrocimento! Sim, o calor tava demais! Entrei na banheira e para mim a temperatura da água era incrivelmente maravilhosa. Eu fazia força nas contrações e o Cauê me fazia massagem, essencial contar com o apoio dele em todos os momentos. A Dra perguntou se eu não queria entoar um mantra, e eu pensei um pouco e respondi: “Não!”. Já podia sentir a cabeça da Anahí descendo e tocar seus cabelos! E descendo mais, a Dra Mariele pressionou o períneo para ajudar a não lacerar e a coroar. Eu lembro que a Dra falou alguma coisa, como “uma força de Deus que vai trazer a sua filha”. E eu pude ouvir o mantra “Ma Durga, Ma Durga”, a sincronicidade com arquétipo da força feminina. Então, força e apareceu a cabecinha dela, eu já podia ver, debaixo da água, mas a contração parou e eu parei. E vem de novo… força e nasceu! Como explicar o inexplicável, dizer o indizível? A certeza de que a vida não era mais minha, só existia aquele Ser! A Dra Mariele desfez a circular de cordão frouxa que tinha e a colocou nos meus braços, um momento em que tudo clareou, a luz do dia, da vida brilhava tão forte e eu só conseguia enxergar aquela criatura tão pequena e linda, muito linda, ali em minhas mãos… 12:38 a Dra Mariele marcou, clampeou logo o cordão e o Cauê cortou pois a bebê precisava se aquecer rapidamente. Ele correu buscar um aquecedorzinho pra ela que ficou enrolada nos paninhos enquanto eu tentava sair da banheira (!). No fim, nasceu na água fria, como o pai queria. Consegui sair da banheira e deitar-me com a Anahí ao seio, veio a contração e a placenta saiu. Não foi preciso dar pontos pois tive lacerações mínimas, de 1º grau. Depois o Cauê me ajudou a tomar banho enquanto a Dra Mariele vestia a roupinha de “saída da maternidade” que minha mãe tinha comprado. Quando eu saí da edícula com a Anahí nos braços caminhando para dentro de casa chegavam minha mãe e avó, de braços dados! Emoção, que só pode ser sentida e difícil de caber nas palavras… Não tem fotos do parto, mas logo foram registrados os primeiros momentos de toda a família conhecer a pequena… Foram chegando avô, bisavó, tio, amigos, e todos encantaram-se com a nossa bela flor do céu: Anahí.

Precisa escrever que foi o dia mais feliz da minha vida??
Tá na cara!!

Momentos compartilhados com muito amor…

e muita emoção!!
(Fotos de Fernanda Vasconcelos)
Filed under: Testemunhos de Partos on Agosto 23rd, 2010 | 2 Comments » Poste no seu Twitter