“A dor boa”
“ (…) SEM MEDO DA DOR
A dor de parto, como todas as outras, é muito subjectiva, mas tem características que a distinguem de outras dores: não é patológica, ou seja, não significa que algo de errado se está a passar no corpo, tem intervalos que permitem recuperar as forças e esquece-se facilmente. A sua intensidade depende da preparação física e mental que se fez para o parto e das condições que o hospital oferece à mulher.
«A dor de parto tem uma forte componente psicológica. Costumo até dizer que 75 por cento da dor de parto está na cabeça», diz Rosália Marques, enfermeira especialista em enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica na maternidade do Hospital Garcia de Orta, em Almada. «Depende do que nos foi incutido durante a gravidez, da nossa cultura, das nossas vivências», explica, para depois dar um exemplo: «Já assisti a partos de adolescentes sem qualquer analgésico, em que elas pouco se queixaram das dores. Dizem-me, muitas vezes, que são iguais às da menstruação. Não têm ainda a cultura do bíblico “parirás com dor” enraizada».
Para combater a cultura do medo do parto, é preciso perceber qual a função da dor no nascimento. «A dor dá indicações à mulher para mexer-se de forma a encontrar posições menos dolorosas. Assim, a bacia da mãe adapta-se melhor ao bebé, dando-lhe espaço para encaixar, e isso facilita o trabalho de parto», explica a enfermeira. Por isso, é tão importante que a mulher possa mexer-se à vontade, o que nem sempre acontece nos hospitais portugueses. «As instituições têm de se adaptar à procura de cuidados. Mas ainda estamos no início», reconhece.
No Garcia de Orta dão-se agora os primeiros passos na humanização do parto. Nesta maternidade, as mulheres podem fazer um plano de parto, deambular, ouvir música, mas ainda é a epidural que está no topo dos métodos de alívio da dor. «As mulheres ainda têm muito receio da dor e pedem a epidural precocemente. Apesar de ter cada vez menos riscos, não deixa de ser uma intervenção», frisa a enfermeira-obstetra. (…)
ESCOLHA DEVE SER DA MÃE
Recentemente, Denis Walsh, conceituado parteiro britânico, incendiou a discussão sobre a utilização da epidural: «A dor de parto tem um propósito e é útil, tendo variados benefícios, tais como preparar a mãe para a responsabilidade de cuidar de um recém-nascido». Em declarações ao jornal The Observer, o parteiro condenou aquilo a que chama a «Cultura da Epidural» e evidenciou os benefícios da dor de parto, que diz ser parte de «um ritual de passagem» para a maternidade. «No Ocidente, nunca foi tão seguro ter um filho. Apesar disso, as mulheres têm mais medo do parto do que nunca», criticou. (…)
Muitas mães acusaram-no de não saber do que estava a falar, por ser homem e nunca poder sentir a dor de parto. Alguns profissionais de saúde consideraram o discurso um pouco exagerado. A enfermeira Rosália Marques lembra que ter um parto sem epidural pode aumentar a auto-estima da mulher. E sugere que talvez essa possa ser a explicação por detrás das declarações de Denis Walsh. «Depois de um parto natural, sente-se que uma etapa importante foi ultrapassada com sucesso. Essa sensação de “sou capaz” é bastante positiva e ajuda a mulher a superar pequenos problemas que possam surgir no imediato. Uma mãe com uma boa auto-estima poderá ter uma relação melhor com o filho», explica.
No entanto, a enfermeira defende que cada mulher deve poder escolher o que quer para o seu parto. «Não se pode culpabilizar uma mãe por não querer ter dor. A dor é subjectiva e prende-se com vários aspectos culturais.»
ALIVIAR A DOR SEM EPIDURAL
Liberdade de movimentos: ter liberdade de movimentos é a melhor forma de lidar com a dor. Andar, rodar as ancas, pôr-se de gatas, dançar suavemente com os braços pendurados ao pescoço de alguém, são alguns dos movimentos recomendados. Mas cada mulher encontrará as melhores posições para lidar com a sua própria dor. Desta forma, seguindo as indicações da dor, permite-se que o bebé tenha o máximo espaço possível para se mexer e sair. Pode também usar uma bola de partos durante a dilatação. Sentar-se direita sobre a bola, com as pernas abertas, estimula a pelve a alargar e a abrir. Quando as mulheres podem escolher a posição em que querem dar à luz, a maior parte fá-lo de cócoras, em pé ou sentada. As posições verticais, por contarem com a ajuda da gravidade, facilitam o trabalho de parto e a expulsão do bebé. Vários estudos têm demonstrado que se a mulher estiver em posição vertical na primeira fase do trabalho de parto tem menos dor, menos necessidade de analgesia epidural e a fase de dilatação será mais curta.
Apoio contínuo: ter ao lado o marido, a mãe ou uma amiga ajuda a lidar com a dor. O acompanhante pode fazer uma massagem nas zonas mais doridas, pode dançar (como é sugerido acima), fazer festas no cabelo ou no rosto, dar a mão, deixar a mulher apoiar-se em si. Ou seja, disponibilizar o seu corpo também. O contacto físico é um poderoso analgésico em qualquer situação, por isso, também no parto. Além disso, ter alguém importante ao lado favorece o estado emocional, dá segurança. Alguém que conheça bem a mulher e perceba as suas necessidades, lhe diga o que precisa ouvir (e saiba estar calado quando for necessário), ajudará, com certeza, ao alívio da dor. Uma revisão de estudos do Cochrane Institute (EUA) concluiu que as mulheres que contaram com apoio contínuo durante os seus partos tiveram menos necessidade de analgésicos e ficaram mais satisfeitas com a experiência.
Água: a utilização de água quente durante a dilatação induz a mulher ao relaxamento, reduz a ansiedade estimulando a produção de endorfinas, encurta o trabalho de parto e aumenta a sensação de controlo da dor e a satisfação. A mulher pode ter à sua disposição uma banheira cheia de água (a temperatura não deve ultrapassar os 37 graus) e ir saíndo e entrando conforme lhe for mais agradável. Esta hipótese é, no entanto, ainda muito rara nos hospitais portugueses. Algumas maternidades permitem um duche de água quente – que também pode ser bastante agradável – mas apenas numa fase muito inicial do trabalho de parto.
Ambiente: diminuir a intensidade das luzes, manter a porta fechada, desligar os telemóveis, ter no quarto o mínimo de pessoas possível, evitar conversas paralelas entre os profissionais de saúde. Quanto menos estímulos existirem no quarto, mais facilmente a mulher consegue relaxar e concentrar-se no trabalho de parto, o que contribui para o alívio da dor. Ouvir uma música suave ou escolhida pela mulher também pode ajudar a criar um ambiente calmo e relaxante.
Fontes: Iniciativa Parto Normal, um documento de consenso, da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras; Método para um Parto Suave, de Gowri Motha. (…)“
Texto: Patrícia Lamúrias
Revista PAIS & Filhos
15 Janeiro 2010
Podem ler o artigo completo aqui.
Filed under: Alívio da Dor durante o Trabalho de Parto on Fevereiro 4th, 2010




Gosto muito da noção que a dor tem utilizade, parece que dá uma razão a tudo..
BlogerMaluka,
Concordo consigo, de facto, dá-nos mais serenidade se percebermos que, pelo menos, no caso do parto, a dor (embora muito desagradável) tem a função de guiar a mulher, de a ajudar a colocar o seu bebé cá fora.
No fundo, até as outras dores, que não nos agradam nada, têm a sua função, pois dizem-nos que algo não está bem com o nosso corpo, que há um desequilíbrio que deve ser reparado.