“Afinal, o que é isto mesmo?”

Uma gestação não é só feita de termos simples como feto, útero ou óvulo. Durante nove meses, somos bombardeados por termos e expressões que parecem saídos de um livro de ficção científica. Descubra alguns conceitos incomuns ligados à gravidez e respectiva vigilância. (…)

AmniocenteseExame que tem por objectivo recolher uma amostra de líquido amniótico, a fim de o analisar. Na maioria das vezes, é realizado para estudar os cromossomas (cariótipo) do feto e detectar eventuais anomalias, tais como as trissomias. É efectuado a partir da 14ª semana, sob controlo ecográfico, e consiste numa punção que vai da pele da barriga à cavidade uterina. Aconselha-se a que a mulher repouse bastante nos dois dias seguintes, para prevenir complicações. As mais frequentes são pequenas contracções e, numa esmagadora minoria de casos (0,5 a um por cento) aborto por fissuração das membranas. A amniocentese é aconselhada a grávidas com 35 anos ou mais, bem como se forem detectadas anomalias na ecografia e/ou se os resultados dos exames sanguíneos deixarem antever anomalias. É também proposta no caso de antecedentes de anomalias genéticas ou cromossómicas dos pais ou na existência de um primeiro filho trissómico. (…)

Citomegalovírus (CMV)É um vírus que pertence à família do herpes e dá origem a uma infecção latente que, na maior parte das vezes não apresenta sintomas, mas que pode ter consequências graves para a saúde do feto. Há que prevenir o risco de transmissão – que acontece por secreções e especialmente através de crianças de tenra idade. Alguns médicos prescrevem uma análise de sangue para conhecer o estatuto imunitário da futura mãe e o controlo baseia-se na despistagem ecográfica. No caso de sinal sugestivo de infecção, é proposta a interrupção da gravidez. As boas notícias é que as anomalias devidas ao CMV são muito raras e mais de 95 por cento dos bebés de mães infectadas nascem perfeitamente saudáveis.

Contracções de Braxton HicksContracções curtas e indolores do útero que ocorrem ao longo da gravidez e não afectam o colo do útero. Aparecem a partir do 7º mês e devem-se à distensão do útero, ou seja da formação, na parte inferior, duma zona mais delgada chamada segmento inferior. Caracterizam-se por um endurecimento breve, indolor e irregular da parede uterina e podem ocorrer mais de dez vezes por dia, quase como se o útero estivesse a «treinar» as contracções do parto – estas mais prolongadas, intensas e dolorosas. Nem todas as mulheres as sentem, mas podem aparecer quando estão a fazer algum tipo de actividade física, mesmo com pouco esforço. Os sinais de alarme aparecem quando as Braxton Hicks são acompanhadas de dor na parte inferior das costas; regularidade e diminuição do intervalo entre contracções; e perda de líquidos.

Descolamento da placentaOcorre quando a placenta se separa da parede do útero durante a gravidez ou no parto, numa desunião que pode ir de escassos milímetros até quase à totalidade. Esta situação acontece em pouquíssimas gravidezes (cerca de um por cento) e é mais frequente durante o último trimestre. Embora apenas seja possível determinar uma causa directa do problema em alguns casos, como por exemplo um traumatismo abdominal ou a existência de um cordão umbilical demasiado curto que exerça tracção sobre a placenta, constatou-se que o problema é mais comum nas mulheres com outros filhos, nas com mais de 40 anos, nas fumadoras e nas afectadas por hipertensão, diabetes ou doenças renais crónicas. A principal consequência do descolamento da placenta são as hemorragias – acompanhadas por dores abdominais – que, por vezes não ilustram a gravidade da situação, dado que muito do sangue proveniente da ruptura dos vasos pode ficar retido. Este problema pode ser muito perigoso para a mãe (devido à perda de sangue) e para o feto, já que o descolamento reduz a área de troca sanguínea, através da qual ele recebe oxigénio e nutrientes. É recomendado o repouso absoluto às grávidas com um descolamento pequeno e parcial da placenta, para que a situação não se agrave e a gestação possa prosseguir até quando for possível. (…)

Pré-eclampsiaEsta complicação da gravidez associa a hipertensão arterial, a albuminúria e a retenção de água nos tecidos, provocando um excessivo aumento de peso. De origens ainda não totalmente conhecidas, acontece em cerca de cinco por cento das gestações e afecta mais as mulheres grávidas pela primeira vez, diabéticas, obesas e com menos de 18 anos ou mais de 40. Pode ser responsável pelo atraso no crescimento do feto e morte no útero. Na mãe existe a hipótese de agravamento da tensão arterial susceptível de causar efeitos nos rins, fígado e cérebro. A pré-eclampsia exige vigilância rigorosa e pode ser necessária a hospitalização. O tratamento consiste em fazer baixar a tensão, através de repouso ou terapia medicamentosa. Se não for tratada, a pré-eclampsia pode degenerar na eclampsia: convulsões repetidas associadas a um coma que pode ser fatal para a mãe e para o bebé. Depois do parto, é tempo de respirar fundo: tudo volta ao normal espontaneamente e não existem riscos acrescidos de nova pré-eclampsia numa gestação seguinte.

Rastreio pré-natalAvalia, em conjunto, os resultados de duas análises bioquímicas ao sangue materno – uma realizada entre as 10 e as 13 semanas e outra entre as 15 e as 16 semanas -, os dados da ecografia das 11 semanas (principalmente a medição da translucência da nuca) e a idade materna. Assim, é possível calcular o risco de ter um bebé afectado por trissomias ou defeitos do tubo neural, tais como a espinha bífida. O risco é revelado por volta das 16 semanas e se for igual ou superior a 1/250 considera-se o resultado positivo. Isto significa que uma em cada 250 grávidas com iguais valores tem um bebé com trissomia 21. Nestes casos, a mulher é aconselhada a fazer uma amniocentese: em cerca de cinco por cento os resultados são negativos, o que significa que o rastreio pré-natal foi um ‘falso positivo’. (…)

Texto: Elsa Páscoa
Revista PAIS & Filhos
29 Dezembro 2009

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