“As estrelas do parto”

Do mesmo modo, o nascimento é um momento dos pais e da criança. É um espaço íntimo e privado, de êxtase e contemplação. Um espaço em que se pode vislumbrar a eternidade. Os técnicos, por mais e melhores que sejam, não passam de técnicos, cuja missão, objectivo e acção tem por alvo, unicamente, os protagonistas do «concerto». Para que se sintam o melhor possível, para que este momento único seja sublime e possam vivê-lo e fruí-lo em plenitude.

Querer apropriar-se do nascimento, reduzindo-o a um «parto», é demasiadamente redutor, inapropriado e «indecente». Quantas vezes o bebé é levado, com o pretexto de «ter de ser aquecido» (debaixo de luzes intensas e brancas, quando a natureza faz, da pele dos braços e do peito da mãe, uma verdadeira fonte de calor, resguardada pela penumbra e pelo toque de pele com pele), ou de terem de ser feitas manobras que podem ser feitas daí a dez ou quinze minutos porque não têm qualquer sequência imediata (exceptua-se a minoria de casos em que o teste de Apgar revela que a criança precisa de cuidados de urgência ou de vigilância)?

O pai está presente no nascimento. E está presente porque não seria concebível este nascimento sem ele. Assim, creio que devemos defender com muito maior veemência do que até aqui tem sido feito, a presença do pai no parto do seu filho, que é também o da mãe e o seu próprio, como um direito inalienável, que só deve ser negado face a condições e razões reais, lógicas e inultrapassáveis. Quando resulta da vontade expressa dos dois, não pode ser negada – a não ser em casos excepcionais – a presença do pai num momento sublime, transcendente e único da vida da família.

O recém-nascido, como têm repetidamente demonstrado Brazelton e tantos outros pediatras do desenvolvimento e neonatologistas, necessita de ser abraçado pela sua mãe e pelo seu pai (seus autores) logo a seguir ao nascimento – caso, bem entendido, razões clínicas não justifiquem outra atitude –, e necessita mamar para repôr a glicémia e aumentar os níveis de ocitocina da mãe (com melhor saída de leite, bem-estar, analgesia e contracção uterina). O momento imediatamente a seguir ao nascer é um momento crítico e histórico, de uma profundidade inigualável. Negar aos pais e ao bebé esta oportunidade, por meras «rotinas de serviço» que não são individualizadas e expressam uma concepção obsoleta do que são «serviços», será sinónimo de prática inadequada.

A realização de uma cesariana com epidural, em que a mãe está lúcida e acordada, e em que o acto médico está claramente separado da intimidade familiar, não me parece ser impedimento para a presença do pai na sala de partos – não passará pela cabeça de ninguém que o pai vá «espreitar por cima do pano verde» ou dar opiniões e «palpites» sobre o acto médico.

Texto: Mário Cordeiro, Professor de Pediatria
11 Maio 2009

Aconselho a lerem o artigo completo no site da revista PAIS & Filhos.

5 Responses to ““As estrelas do parto””

  1. Concordo plenamente! Nunca entendi o receio da comunidade médica em dar acesso dos Pais ao bloco onde a cesariana está a ser feita. Para ser franca, até sei a razão, e penso que todas sabemos, e tem haver com o factor do controlo que os médicos sentem que têm que ter.

    Mas tudo vai mudar…

  2. Sra. Paula penso que tem razão quando refere o factor controlo.

  3. Não poderia estar mais de acordo!

    MJ

  4. Sera que é controlo? ou será que é simplesmente assim que foram ensinados?

  5. Ursulinha,

    Acredito que até sejam ensinados assim, mas penso que o objectivo de serem ensinados dessa forma é permitir que tenham o controlo da situação. É só a minha opinião. ;)

    MJ

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