Campanha pelo Direito ao Parto Normal

Lúcia Leite, enfermeira especialista em Saúde Materna, está à frente da campanha «Pelo direito ao Parto Normal», lançada esta semana*. Em entrevista ao IOL Mãe, explicou os objectivos e as estratégias e apontou o que tem de mudar na assistência ao parto.

Falou de consensos e de mudança. Parece tudo muito longe e teórico. Como pretendem chegar lá?
A ideia é pôr a sociedade a discutir. As mulheres não têm noção dos riscos que correm quando se sujeitam a intervenções desnecessárias. Nem sequer têm noção de que são, de facto, desnecessárias. Fala-se muito da cesariana e da indução, que são as mais evidentes, mas há muitas mais: o internamento precoce, o facto de se acelerar o parto com recurso a medicamentos, o facto de as mulheres ficarem horas a fio deitadas numa cama, ligadas ao CTG… uma série de práticas que são de facto desnecessárias e que conduzem a outras intervenções e a partos mais complicados e instrumentalizados.

Mas por que é que ficam internadas? Porque é que no hospital não são aconselhadas a voltar mais tarde, em vez de as deitarem numa cama e ligarem o CTG?
Porque muitas vezes elas estão de facto muito ansiosas e, além disso, moram longe. As mulheres hoje não estão preparadas, sentem-se desamparadas. Claro que isto leva a muitos procedimentos desnecessários.

Se só temos no hospital salas de parto e não de dilatação, temos tendência a acelerar aquele processo porque há outras grávidas em trabalho de parto que vão chegar. Internamos em fases muito precoces, aceleramos com ocitocina artificial que dá origem a dores mais fortes, por isso damos epidural. Se damos epidural, temos de recorrer à monitorização contínua e é um crescendo que acaba muitas vezes em partos instrumentalizados e cesarianas que poderiam ser evitados.

Considera que as mulheres, devidamente informadas, optarão por partos com menos intervenção?
Sim. Portugal é um dos países com mais intervenção no parto. Um estudo recente indica isso mesmo. Claro que temos uma baixíssima mortalidade materno-fetal, mas isso não pode ser conseguido à custa de uma morbilidade alta a outros níveis. Temos de tirar as dores às mães porque as tornámos mais fortes, mas não pensamos no que estamos a fazer aos bebés.

Acelerar um parto é potenciar o sofrimento fetal, é aumentar a pressão sobre o bebé porque as contracções tornam-se mais fortes e intensas muito mais rapidamente do que era suposto. Ninguém diz isto às mulheres: que se não estão a provocar sofrimento aos seus bebés, pelo menos um grande desconforto estarão com certeza.

Aceita então que se opte por uma cesariana sem razões clínicas que a sustentem?
Não vejo nada de mal em que se opte à partida pela cesariana, mas acho errado que se tome essa opção sem estar consciente dos riscos. E é isso que acontece na maior parte dos casos.

Esta não é uma campanha contra a cesariana, não se trata disso. É uma campanha de esclarecimento e uma das coisas que as pessoas não conhecem é que a cesariana tem muito mais riscos do que o parto normal. O risco de infecção é maior, há os riscos associados à anestesia, os riscos de trombo-embolismo que qualquer cirurgia tem e a dor é muito maior.

Quem opta pela cesariana para fugir à dor está a optar por três semanas de dores em vez de algumas horas. Num parto normal pode haver oito horas de dores intensas, mas não são dores ininterruptas. São dores que duram 30 a 60 segundos e depois páram. Desde que não haja medo e tensão, elas são bem toleradas. Depois descansa-se. Respira-se fundo. As dores da cesariana não passam, são ininterruptas. Há quem ainda as sinta quatro semanas após o parto. Não é uma boa troca, na minha opinião.

Texto: Ana Esteves
Revista IOL Mãe
*2009/04/09

Parabéns à enfermeira Lúcia Leite, por esta campanha tão importante!
Aconselho a lerem a entrevista completa, vale muito a pena, é muito esclarecedora.

Podem ler aqui.

9 Responses to “Campanha pelo Direito ao Parto Normal”

  1. Excelente artigo. Parece-me a mim que as pessoas se esquecem que o fins não justificam os meios. Claro que assegurar a vida dos bebes e das Mães
    e o mais importante, mas de que forma é que isso não esta ssegurado nos partos ditos normais?

    Excelenete blog MJ!

  2. Jamininha,

    É isso mesmo, a Natureza assegura que os partos corram bem, claro que quando isso não acontece (na minha opinião são poucas as vezes), então o Homem com os seus conhecimentos deve intervir. Mas 1º há que deixar a Natureza tentar!

    Fico contente por ter gostado do blog. : )

    MJ

  3. n são dores interruptas mas são dores fortes e por vezes insuportaveis.. as cesarianas não têm dor..eu consigo entender a tentação.

  4. Guilu93,

    Normalmente as dores tornam-se insuportáveis porque a mulher não tem liberdade de movimentos ou está assustada.

    Em relação à cesariana, no momento do parto não se tem dores, mas a recuperação, ou seja, o pós-parto quase sempre é doloroso.

    MJ

  5. mas não o é no parto normal? outra coisa, receio muito os rasgões, e num normal não se controla o grau digamos do rasgo. eu penso que os partos naturais são bonitos, mas as vatagens dos partos hospitalares em mutas coisas sao inegaveis. mm assim parabens pelo blog, interesso me mt por estas coisas ate pk vou ser mae daqui a 4 meses ;)

  6. Guilu93,

    No parto normal, a recuperação é muito mais rápida, pois poderá ou não ter levado pontos.
    Numa cesariana obrigatoriamente foi cortada na barriga e levou pontos.

    Em relação às lacerações, o que a maioria das mulheres desconhece é que a própria posição deitada não ajuda. Se a mulher escolher a posição que o corpo lhe pede, e que normalmente é uma posição mais vertical (como por exemplo de cócoras) aí a probabilidade de fazer uma laceração é menor.

    Gosto muito deste “feedback”, até porque fico com mais ideias sobre que temas colocar no blog.

    Desejo-lhe uma boa gravidez e um parto suave.

    MJ

  7. Nunca tinha pensado nisso da posição. Mas assusta-me a ideia de estar de pe..tenho medo da laceração ser maior assim por o bebe sair de uma forma mais abrupta! entende o k estou a dizer?

  8. Guilu93,

    Uma posição mais vertical, está a favor da lei da gravidade e isso ajuda no momento da expulsão.
    A probabilidade de ter uma grande laceração é menor, pois dá tempo ao períneo de se adaptar, enquanto vai fazendo força para o bebé saír.

    Por exemplo, quantas vezes ouvimos dizer, num relato de um parto, que a enfermeira teve que fazer força na barriga da mãe para o bebé nascer? É que a posição deitada não é muito natural no parto, embora algumas mulheres até se sintam confortáveis nessa posição.

    O importante é ser a mulher a escolher a posição que o corpo lhe pede e não aquela que o médico ou enfermeiro manda.

    MJ

  9. Bem ter o bebe de pé parece-me natural, ne? tendo em conta a açao da gravidade.

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