Continuação do meu trabalho de parto
Passou mais de 1 ano e meio desde o Nascimento do meu filho e com o tempo veio o esquecimento de pormenores do nosso Parto. Mas sinto que chegou a altura de dar continuação ao meu testemunho, de partilhar mais momentos da minha vivência, mesmo que com hiatos, mesmo sem conseguir descrever todo o processo de forma pormenorizada. Hoje escrevo mais serena, com uma tranquilidade que não possuía na altura em que escrevi os outros posts sobre o meu Parto. Engane-se quem pensa que estou conformada, que aceitei a forma como tudo aconteceu e já nem penso na tristeza e revolta que senti. Ainda hoje dói muito, ainda hoje tenho uma ferida na alma do tamanho de uma cratera, ainda hoje me vêm as lágrimas aos olhos sempre que me lembro como vivi o momento mais importante da minha vida.
(…)
E pronto, ali fiquei eu deitada, ligada ao CTG, com o corpo adormecido, sem ter qualquer sinal de que estava em trabalho de parto. O Corpo, a Mente e a Alma dormentes. Por um lado, a sensação de alívio porque já não sentia dores… porque já não sentia dores num ambiente que me era completamente hostil… porque já não sentia dores na presença de pessoas que não me transmitiam carinho, afecto, Amor, Respeito… Por outro lado a sensação de derrota, de não ser aquilo que desejava para mim e para o meu bebé, de saber que a epidural não é uma droga milagrosa…
Uma enfermeira pendurou 2 saquinhos com líquido no suporte para o soro (2 sacos? oh não, não me digam que…
), perguntei o que era, “é o soro”, “sim mas são 2, o que é o outro?”, “é oxitocina… levou epidural, é para ajudar”… Perante este argumento, calei-me
… Se não tivesse levado epidural ainda teria alguma coragem para dizer que não queria oxitocina no soro, mas fiquei sem saber como argumentar. Ainda hoje tenho esta dúvida, é realmente necessária oxitocina sintética quando levamos epidural? A função da oxitocina é ajudar na dilatação, não basta irem vendo se a dilatação está a evoluir e em caso negativo, aí sim recorrerem à hormona sintética? Eu entrei em trabalho de parto espontâneo, eu tinha oxitocina natural a correr-me nas veias!
Às tantas deixaram-nos sozinhas, a mim e à minha querida Doula. A R. perguntou-me se não queria tentar dormir, descansar um pouco. Mas como é que poderia? Estava em trabalho de parto, anestesiada, mas mesmo assim, em trabalho de parto! O meu filho poderia nascer a qualquer momento, sentia-me estranha, drogada, mas ao mesmo tempo alerta, nunca conseguiria adormecer naquele ambiente com aquelas pessoas por perto!
Não sei durante quanto tempo ficámos sozinhas no quarto, tenho a sensação que foi algum, mas não consigo precisar. Uma hora? Mais?… A partir daqui só consigo descrever momentos específicos dos quais me recordo, não faço ideia da ordem cronológica deles, se aconteceram antes ou depois de outros, que horas eram, quanto tempo passou, nada disso sei dizer. Lembro-me de ouvir outras mulheres em trabalho de parto a gemerem, bebés a chorarem… Recordo-me que a minha Doula tentava suavizar o momento dizendo “estás a ouvir? nasceu um bebé!” e falava isto com um sorriso no rosto, tentando amenizar a minha tristeza e o meu medo.
Fui sujeita a vários toques e por vários profissionais.
Quando enviei o meu plano de parto para a MAC, recebi como resposta: “no que diz respeito aos exames vaginais (toques), apenas são efectuados o mínimo necessário”. Neste assunto não tenho dúvidas, sei que fui sujeita a toques desnecessários e de alguns desses momentos tenho recordações bem nítidas. Numa das vezes entraram 3 jovens médicos, duas raparigas e um rapaz, uma delas a médica que me observou quando fui à maternidade pela 1ª vez nessa noite e me fez aquele comentário tão desagradável. Quando olhou para mim e viu quem eu era disse um “ah!” surpreendido mas ao mesmo tempo desdenhoso. Só pensei “é muito azar ter outra vez esta pessoa na minha presença e eu tão vulnerável, tão exposta…”
Ficaram os 3 à minha frente, ele no meio delas e enquanto calçava a luva para me fazer o toque, perguntou qual delas é que iria colocar-lhe o gel nos dedos, elas riram-se e colocaram à vez, estavam todos muito divertidos como se aquele momento fosse uma brincadeira. Lembro-me de ter sorrido, ainda hoje não sei bem porque o fiz… terá sido por me sentir drogada?… terá sido um mecanismo de defesa?… não sei… aquilo que sei é que sorri por fora, mas por dentro chorava aos prantos, porque me sentia tão desrespeitada!
Durante todo o trabalho de parto não houve um único profissional que me tivesse perguntado se podia fazer-me o toque, também nunca me informavam quando o iam fazer e apenas uma vez foi referida a dilatação! Eu era apenas um corpo, onde médicos e enfermeiros podiam mexer à vontade, sem permissão (ah pois, a permissão já tinha sido dada, quando assinei uns papéis que mal consegui ler devido às dores das contracções, aquando da triagem)! Era como se não fosse humana, tudo era feito de forma mecanizada, com frieza, mal olhavam para mim.
Houve um momento em que me trouxeram um copinho com chá, carregado de açúcar! Tinha a boca e a garganta secas, mas era impossível conseguir dar mais que 2 golinhos, de tão enjoativo que era.
Recordo-me de começar a sentir-me mal disposta e ter dito à minha Doula que ia vomitar. Nessa altura foi muito importante a sua presença, porque simplesmente odeio vomitar, fico alterada, nervosa e completamente fragilizada e ter a R. ao meu lado tranquilizou-me. Lembro-me das suas palavras serenas “está tudo bem é um processo que precisas passar”. Vomitei duas vezes, fiquei um caco, mas senti-me protegida pelo toque das suas mãos.
Não me lembro quanto tempo passou, a enfermeira faz-me um toque… 8 cm! Não queria acreditar que tinha chegado até ali, mesmo anestesiada, ouvir dizer que já tinha 8 cm de dilatação fez-me sentir melhor. O historial obstétrico das mulheres da minha família é complicado e a “falta” de dilatação era um fantasma a pairar sobre mim. Mas nessa altura a epidural começava tenuamente a perder o efeito, a enfermeira perguntou-me se sentia uma pressão como se tivesse vontade de ir à casa de banho e de facto dei-me conta que sentia sim! Confesso que comecei a ficar assustada, nessa altura pensei “ainda me faltam 2 cm, como é que vou aguentar o tempo que falta, que não sei se será muito ou pouco, deitada nesta cama, presa ao CTG, com esta “gente” toda a fazer-me toques e a sentir tudo??”. Sentia-me nervosa, estava com medo mas tinha a sensação que não transmitia esses sentimentos para fora, não sei bem explicar… achava que “apenas” sentia isso e que o meu rosto não expressava nada, como se estivesse apática. No entanto, numa conversa que tive com a minha Doula, muito depois do meu parto, ela referiu que nessa altura comecei a ficar alterada, que mostrava medo e que cheguei a verbalizar isso. A recordação que tenho é que ouvi as enfermeiras falarem no reforço e foi só aí que me lembrei de dizer que queria levar nova dose de epidural. Estava completamente assustada, a ideia de sentir tudo o que me estavam a fazer e ainda iriam fazer, associado ao medo inconsciente da fase de expulsão, levou-me a tomar esta decisão. Fui novamente anestesiada e aquela pressão que me mostrava que o meu corpo e o meu bebé sabiam o que precisava de ser feito, desapareceu.
Por esta altura a R. saiu e (soube mais tarde) teve oportunidade de estar com o meu marido, uma vez que os acompanhantes quando precisam de ir à casa de banho têm de ir à sala de espera. Desta forma ele ficou a saber como estavam a correr as coisas, que nesse momento até estavam encaminhadas, com 8 cm (à partida) já estaria perto do período expulsivo.
Era dia, lembro-me de ver luz na janela e de ouvir vagamente o chilrear das aves. A R. não demorou muito e entretanto começou a haver mais actividade no quarto. Iniciavam-se as rondas diurnas, vários médicos e enfermeiros entravam, novas intervenções… Uma médica a comentar com as outras (penso que estavam 5 profissionais no quarto!), enquanto me fazia o toque, sobre um acidente grave em que tinham morrido pessoas… E fazia isso com uma naturalidade, como se estivesse no café a conversar com as amigas! A R. olhava para mim com indignação, na esperança que não me sentisse afectada… Fiquei incrédula, mas já nem conseguia reagir, sentia-me apática, submissa.
Sei que me puseram uma máscara de oxigénio, mas não me lembro quando, talvez tenha sido ainda durante a noite, não sei… Supostamente não estava a respirar de forma eficiente para ajudar o meu bebé. Mais tarde a minha Doula disse-me que estava com receio que me preocupasse com esses comentários, mas curiosamente (ou não, o instinto de mãe é muito certeiro
) nunca senti que o meu filho estivesse com dificuldades ou em perigo. Quem me visse prostrada naquela cama com ar apático e uma máscara de oxigénio, concerteza pensaria que estava doente e não em trabalho de parto!
Eram toques e mais toques… ouvi falar em rebordo, mas nunca me explicaram nada. Ainda hoje não sei exactamente o que é, apenas que dificulta a passagem do bebé. Pelo que apurei, algumas parteiras mais experientes conseguem “segurar” o rebordo permitindo que o bebé nasça sem problemas (acredito que nem todos os casos serão iguais), mas havia um enfermeiro que estava especialmente apreensivo. Aliás, ele era a apreensão em pessoa, tão desacreditado da capacidade de uma mulher pequena conseguir parir normalmente. Sim, sou pequena em todos os sentidos, altura e peso, mas isso não é necessariamente impedimento para um parto vaginal! No entanto para esse enfermeiro devia ser, disse várias vezes que eu era pequena e chegou a perguntar-me a altura. Houve um momento em que ele estava a fazer-me o toque, mexeu e remexeu dentro de mim, tentava puxar não sei o quê, só pensava “e se não tivesse levado o reforço?”. Quanta violência, quanto desrespeito pelo meu corpo… Seria aquilo realmente necessário? Acredito que não, o que quer que fosse que o enfermeiro estava a tentar fazer não resultou, não ajudou nada e entretanto o meu corpo (e a minha alma) foi violentado. Lembro-me dele dizer: “este bebé está a fazer tanta força!”. O meu menino sabia exactamente o que tinha que fazer e mesmo com oxitocina sintética e duas doses de epidural manteve-se activo no seu papel! (E eu uma Mãe tão fraca, que sucumbiu ao medo e não lutou mais.) Uma das médicas, enquanto me fazia o toque dizia “sim, sim tem rebordo, mas passa”, tudo isto entre eles, sim porque mal olhavam para mim, era como se eu não estivesse presente.
A enfermeira pede-me para fazer força, diz-me para segurar nas pernas encostando os joelhos ao peito. Tinha levado o reforço da epidural à pouco tempo, não me disseram mais nada em relação à dilatação, ainda hoje não sei se consegui ter mais de 8 cm. Nunca imaginei que me fossem mandar fazer força tão cedo, tinha quase a certeza que a minha dilatação ainda não estava completa. Na altura cheguei mesmo a pensar “então mas agora que já não sinto nada, nem sequer a pressão no ânus, é que me pedem para fazer força? mas ainda só estou com 8 cm, não é? não é cedo demais? faço força como? em que direcção? quando?”. Tantos pensamentos que me vieram à cabeça naquele momento e o medo sempre presente. Acho que me sentia cada vez mais assustada, comecei a acreditar que não ia conseguir.
A enfermeira senta-se à minha frente, puxa uma mesinha para perto dela, ouço o tilintar de instrumentos metálicos, imediatamente penso “oh não, não… este som… ela vai fazer-me a episiotomia… não quero! NÃO QUERO SER CORTADA!!”. Faço o que ela me pede, faço força semi-deitada, com os joelhos ao peito e sinto que não é assim que quero estar, que desconforto, todo o meu corpo (mesmo com epidural) me dizia que não era assim, aquela não era a posição fisiológica, não faz sentido! A minha vontade era pôr-me de cócoras em cima da cama. Fiz força, muita força, tinha a minha Doula ao meu lado, mas que também conseguia ver o que se passava na minha vulva. A R. olhava nos meus olhos e mais uma vez foi tão bom sentir a sua presença, dizia-me “isso, isso mesmo, estás a fazer bem”, palavras de coragem, de incentivo, de afecto, de Amor… palavras que não tive por parte de nenhum profissional de saúde. Gritei, gritei bem alto, gritos que vinham do fundo do meu Ser, gritos de Força, de Energia Feminina… sabia bem, ajudava-me a ter mais coragem, era tão instintivo… Mas no local onde me encontrava, não podia fazer o que a Natureza me pedia, mesmo aqui não me livrei de um comentário irónico da enfermeira: “está a fazer bem, mas dispensava-se a banda sonora de fundo”!!!…
Fui fazendo força sem saber se estava a ajudar o meu bebé a nascer, no fundo achava que não, no fundo não acreditava em mim… acho que comecei a desistir… A enfermeira move-se com rapidez… mais movimentos dentro do quarto… tiram-me as cintas do CTG, querem levar-me para o bloco (de parto? cirúrgico? operatório?, não sei como se chama). Fiquei em pânico, agarrei os braços da R., olhei-a nos olhos, supliquei que não queria ir, chorava sem lágrimas, estava completamente seca… boca, garganta, nariz, olhos, era como se não houvesse um pingo de água no meu corpo… A minha Doula com o olhar triste, mas sempre a tentar fazer-me sentir o mais apoiada possível, ouvi-a dizer qualquer coisa como “… vai tudo correr bem… Mãe Terra está contigo…”. A enfermeira ainda comentou: “está a chorar porquê? vai para o bloco para ser ajudada”. Tive que largar os braços da minha Doula… sentia uma angústia enorme… estava aterrorizada… e levaram-me.
M.J.
(continua)
PS – para quem não leu os posts anteriores sobre o meu parto, é só procurar na categoria Testemunhos de Partos.
Filed under: Testemunhos de Partos on Fevereiro 23rd, 2012





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