Entrevista com o Dr. Gerd Eldering

eldering_peq1 Acredita que, para ajudar um bebé a nascer, é preciso os médicos colocarem-se no lugar da mulher. Darem-lhe amor. Gerd Eldering veio a Portugal ajudar os profissionais da Maternidade Alfredo da Costa a desenvolverem uma Unidade de Parto Natural. À PAIS & Filhos falou da revolução que as mulheres têm de liderar.

Em Portugal não temos parteiras como na Alemanha. Sem ser os médicos, temos os enfermeiros parteiros. Como é possível que os profissionais de saúde acompanhem o tempo que demora um parto? Na vossa clínica é fácil porque foi montado o serviço dessa forma. Mas é possível multiplicar o modelo? É que a hora de trabalho de um enfermeiro é cara. Já para não falar do tempo de trabalho de um médico.
Os médicos não estão presentes durante o trabalho de parto! São as parteiras ou as enfermeiras. As enfermeiras parteiras não são tão caras como os médicos. Não vejo problema nenhum. Não se pode substituir o acompanhamento pela medicina. Se o acompanhamento for feito por um médico, isso pode ser contraproducente. É o que acontece, por exemplo, com os medicamentos. Todos têm contra indicações. O acompanhamento da grávida, se for em excesso, também tem contra indicações. Os médicos estudam sempre a patologia e não a fisiologia.

Por que acha que os profissionais de saúde são tão cépticos em relação ao parto natural?
Porque têm medo das mulheres, têm medo da proximidade. Por isso afastam-se o mais possível, criam um mundo à sua volta e sentem-se protegidos por isso. Mas eu posso dizer, pela minha parte, que, pelo facto de ter posto a medicina no seu devido lugar, abri os meus horizontes. Também tem a ver com questões etéticas e com o medo da justiça. Isto não acontece só na Europa do Sul. Na Alemanha também. Muitas vezes os médicos convencem-se de que o parto natural é perigoso e se alguma coisa correr mal vão ter os advogados à perna.

Sinto muitas vezes que não sou bem compreendido, porque na clínica tratamos o parto patológico da mesma forma que tratamos o parto natural: pomo-nos no lugar da mulher. Amamo-la e pomo-nos no seu lugar na medida do possível. Não posso dizer que assistimos partos de uma maneira natural. Isso não faz sentido. Assistimos sempre da mesma maneira. Não posso dizer a uma mulher: ‘quer um parto normal, vai para o lado dos partos normais, mas se de repente alguma coisa correr mal vai para o lado dos partos não normais’. Do meu ponto de vista este modo de encarar o parto está errado desde o início.

Temos de ser empáticos. Compreender as mulheres, os companheiros, as crianças. Deste modo, temos um parto normal mesmo que se torne um parto intervencionado.
Quando vejo que, aqui neste hospital, os irmãos e os pais só podem entrar a determinadas horas, não acho isso normal. Eles têm de ter a oportunidade de vir ter com a mulher e com o bebé em qualquer altura.

As mulheres foram intoxicadas com o avanço da tecnologia nos nascimentos. A mensagem que passou foi que só com a tecnologia ao serviço dos partos se garantiam nascimentos seguros. A única forma de assegurar que se reduzissem os números de morbilidade pré-natal e perinatal era o parto ser no hospital e as mulheres estarem rodeadas de máquinas. As mulheres ficam sem saber o que fazer porque os médicos continuam a passar a mesma mensagem.
Mas isso é mentira! Esses médicos não conhecem as publicações mais recentes. Ou talvez eles conheçam mas não querem utilizar esses conhecimentos porque perdem poder. Digo isto sendo eu médico.
A nossa mortalidade e morbilidade perinatal não é mais alta do que noutras clínicas. Na Alemanha há um estudo feito regularmente para comparar as clínicas e hospitais e a conclusão é essa mesma.

Em Portugal a indução de parto e a administração da ocitocina sintética é quase uma prática normal.
Isso é terrível. É um modo ditatorial de assistir o parto. Aceito a cem por cento a medicina, é absolutamente maravilhosa, salva vidas, mas só uso a técnica quando há necessidade. E quando tenho de recorrer à técnica, explico à mulher por que é que tenho de o fazer e o que vai acontecer.

As mulheres são fortes e nós temos de receber essa força e ampliá-la. Temos de lhes explicar que normalmente o parto é assim mas que, neste caso, há isto ou aquilo que não está a correr tão bem e por isso temos de recorrer à medicina convencional que temos à disposição. Isso permite às mulheres manterem a sua dignidade e a auto estima mesmo em situações médicas complicadas.

Texto: Maria Jorge Costa
Revista Pais & Filhos
13/03/2009

Aconselho a lerem o artigo na íntegra, é muito interessante e faz-nos ver como “as coisas” são tão diferentes “lá fora”!
No fim, tem uma pequena entrevista com o Dr. Jorge Branco, responsável pela Maternidade Alfredo da Costa. Espantem-se com a taxa de episiotomia que tem a maior maternidade do nosso país!

Podem ler o artigo completo aqui.

7 Responses to “Entrevista com o Dr. Gerd Eldering”

  1. Adorei o excerto. Sabe se existe algum livro editado deste médico?

  2. A minha esposa está à espero de bebe, e só a ideia de não poder estar ao lado dela na altura do parto é algo que nem quero pensar. Desconhecia este médico, agradeço o excerto.

  3. Olá Flávia!

    Desconheço se existe algum livro escrito pelo Dr. Gerd; através das minhas pesquisas não encontrei nenhum (infelizmente).

    No entanto, sei que existe um livro de uma parteira alemã, a Cornelia Enning; o livro chama-se “O Parto na Água”.
    Não sei se lhe interessa.

    Maria João

  4. Olá Maria, obrigado pela resposta! Esse livro que refere é da mesma escola deste médico? E sabe onde o posso encontrar?

    Obrigada

  5. E já agora.. sabe se existe algum Hospital que faça partos na água em Lisboa?

  6. Olá Pedro!

    Penso que a maioria dos hospitais públicos portugueses permitem a entrada do pai quando o parto é normal. No caso de ser cesariana ou de ser um parto com recurso a ventosa ou fórceps, aí é que normalmente não deixam.

    Agora, o que pode acontecer é esquecerem-se de o chamar; parece pouco provável, mas já tenho lido testemunhos de partos em que os profissionais de saúde esquecem-se de chamar o pai!

    Penso que uma boa forma de se “protegerem” é fazerem um plano de parto.

    Desejo à sua mulher uma gravidez saudável e um parto sereno.

    Maria João

  7. Flávia,

    Realmente não sei se o livro é da mesma escola.

    Também nunca o vi à venda em Portugal, no entanto sei que o vendem no site brasileiro Maternidade Ativa (o link está no blog, do lado direito).

    Em Portugal ainda não existem hospitais públicos que permitam o parto na água. Mas alguns já deixam fazer a dilatação dentro de água, a expulsão é feita fora. É o caso do Hospital São Bernardo em Setúbal e se tudo correr bem, também será assim no Centro de Nascimento da Maternidade Alfredo da Costa. Mas não sei em que fase vai a construção deste centro.

    Maria João

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