Episiotomia
“«Incisão no períneo e na parede vaginal que tem por objectivo facilitar o parto e evitar uma ruptura.» Esta é a definição vulgar de um dos procedimentos cirúrgicos mais comuns em obstetrícia e um dos poucos realizado sem qualquer consentimento da mulher, a episiotomia. Em Portugal, são poucas as grávidas que escapam à experiência do «corte» no períneo (área muscular compreendida entre a vagina e o ânus) durante o parto, mas o tema é controverso.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) contesta o uso rotineiro desta técnica, considerando a forma como a episiotomia é, actualmente, praticada uma «conduta frequentemente utilizada de modo inadequado». Estudos publicados ao longo das últimas duas décadas concluíram não haver razões científicas para continuar a executar, indiscriminadamente, a incisão no períneo. A episiotomia não previne a maioria das situações para as quais está indicada, em particular as lesões graves. Pelo contrário: existe evidência de que pode provocá-las.
Isto mesmo está demonstrado num artigo publicado em 2003 na Acta Médica Portuguesa (AMP). Segundo as autoras, não existem bases sólidas que legitimem a prática rotineira da episiotomia. O tom crítico domina o trabalho: «Os riscos associados ao seu uso são significativos e levam-nos a ponderar se perante esta ausência de suporte científico é correcto praticar um acto para o qual não se encontram benefícios que o justifiquem!».
Bárbara Bettencourt Borges, umas das autoras do artigo publicado na AMP, obstetra na Maternidade Alfredo da Costa (MAC), avança uma justificação para o elevado número de incisões praticado em Portugal: «Criou-se o mito de que é melhor cortar que rasgar. É uma prática muito enraizada.» E critica: «É mais fácil, durante o período expulsivo de um parto, cortar e abreviar o nascimento do que esperar que o períneo distenda.» Bárbara Bettencourt Borges contesta a teoria de que a episiotomia previne as lesões do períneo, argumento habitualmente invocado para justificar este procedimento cirúrgico.
«Os estudos mostram que não é verdade!»
A enfermeira obstetra Maria de Lurdes Francisco concorda: «Há mulheres submetidas a episiotomias que têm lacerações graves.» A enfermeira afirma mesmo que as piores lesões perineais que viu, ao longo da sua carreira, surgiram na sequência de uma episiotomia. «Falta calma na obstetrícia», aponta Maria de Lurdes Francisco, criticando a forma «apressada» com que muitos especialistas assistem o parto.
Não fazendo episiotomia, a probabilidade de surgirem lacerações espontâneas aumenta. Bárbara Betterncourt Borges desdramatiza: «Algumas nem necessitam de sutura ou então precisam de poucos pontos.» Nestes casos, o que poderia ter acontecido se se tivesse optado pela episiotomia? «Dar vinte pontos, em vez de cinco…»
A atitude própria de um obstetra perante uma mulher em trabalho de parto é a de não arriscar. Só que a episiotomia não previne as complicações que os médicos julgam que previne. «Estudos feitos com milhares de mulheres têm demonstrado que não evita nem as lacerações graves, nem a incontinência urinária, nem os problemas sexuais», clarifica Bárbara Bettencourt Borges. «A experiência de uma episiotomia é muito desagradável, quem passou por isso sabe.»
Pouco respeito pela fisiologia do parto
O elevado número de episiotomias é o reflexo de uma prática «que não respeita a fisiologia do parto». Maria de Lurdes Francisco não tem dúvidas: «A medicalização do nascimento dificulta a evolução normal do trabalho de parto.» A incisão no períneo acaba por ser mais uma intervenção entre tantas. Os sucessivos toques, «a norma de manter a mulher deitada», as constantes interferências «só contribuem para que os músculos do períneo fiquem mais tensos.» Atitudes que «favorecem» a episiotomia, critica a enfermeira, lamentando que a velha regra da obstetrícia, “paciência e vaselina”, tenha caído em desuso. «Precipita-se muito o nascimento.»
A doula Carla Guiomar não podia estar mais de acordo: «Assistimos a uma cascata de intervenções que cria um ambiente desfavorável ao parto.» A episiotomia rotineira é um sinal desse «paradigma». «Se o objectivo é proteger o períneo, a última coisa que se deve fazer é cortá-lo. Não existem períneos que não distendem» defende. «Há períneos menos elásticos, que talvez venham a sofrer lacerações. Isso é razão para se fazer uma episiotomia em tantas mulheres?» E continua: «Uma laceração superficial não tem consequências de maior e sara em poucos dias. Uma episiotomia é um corte completo dos tecidos. Intervir sem necessidade aumenta os riscos. É um erro assente na convicção de que a mulher é incapaz de dar à luz.»“
Texto: Maria João Amorim
Revista PAIS & Filhos
21 Fevereiro 2007
Aconselho a lerem o artigo completo, é muito esclarecedor!
Filed under: Episiotomia on Julho 15th, 2009





Estamos no ano 2020 e a episiotomia de rotina foi proibida, pois não existe nenhum estudo cientifíco que prove que tem alguma vantagem, pelo contrário é prejudicia,l pois a vagina fica com uma cicatriz deixa de ser um órgão elástico, há o risco de desinervacão da genitália externa (nervos sacrais S2, S3, S4), há o risco de incontinência fecal ou urinária pois são cortados músculos.
Para a abolição da episiotomia também contribuiu o facto das mulheres estarem mais informadas e os obstetras em vez de obedecerem cegamente os protócolos remderam-se às evidências cientificas.
Ainda bem que a mutilação genital passou a história.
Olá Paula!
Obrigada pelo seu comentário.
Seria tão bom que realmente a episiotomia por rotina fosse abolida. Ainda temos um longo caminho pela frente até isso acontecer.