“Gestação: tempo de mudanças bio-psico-sociais”
“ (…) A partir do momento que a mulher engravida ela passa a ser um objecto de interesse e preocupação da sociedade, mas não por ela em si e sim por causa do bebé que ela carrega. “O importante é que o bebé nasça com saúde, seja por parto normal ou cesariana”, argumento que reflecte a preocupação da sociedade com o bem-estar do bebé. A falta de preparação psicológica das mulheres para enfrentar a gravidez e o parto explica o alto índice de cesarianas electivas em nosso país. Infelizmente no Brasil, o parto ainda é visto como um evento médico com possibilidade de complicação, nesse contexto a mulher é tratada como paciente que necessita de inúmeras intervenções (muitas vezes desnecessárias) e seu estado emocional é desconsiderado. O sentido humano e feminino do parto está se perdendo, sendo substituído por um processo mecânico, impessoal e frio.
Garantir o bem estar geral da mulher durante a gestação é essencial, pensando não somente no aspecto físico, mas também no aspecto emocional, que age também sobre o crescimento e desenvolvimento fetal com consequências a longo prazo. Nem sempre o estado emocional da gestante é levado em consideração pelos profissionais de saúde, que acreditam que esta é uma responsabilidade da família e da comunidade, e acabam se preocupando só em cumprir as rotinas e protocolos.
(…) A passagem de “filha” para “mãe”, requer a morte da filha para o nascimento da mãe, e vem rodeada de sentimentos intensos que irão transformar e amadurecer os pensamentos e as condutas da mulher, que pode responder de forma positiva ou negativa a essas modificações. Aceitar e mergulhar na gravidez requer um acto de fé na vida, fé de que apesar das dificuldades vale a pena viver a maternidade. Mas para que esse sentimento desperte, é necessário um solo fértil. A gestante precisa de acolhimento e compreensão.
Em nossa cultura racional e moderna, voltada ao modelo cartesiano, concede-se muito poder à razão. A intuição é vista como uma fonte de conhecimento não confiável. As emoções, sentimentos e intuições são abafados e o corpo se transforma em matéria inerte, um mero objecto de manipulação.
Assim sendo, as mulheres são firme e silenciosamente convidadas a não perguntar, não questionar, não duvidar. Ela deve continuar vivendo o período da gestação normalmente, como se não houvesse transformação alguma. Nos consultórios ela é tratada como todas as outras, afinal o protocolo deve ser seguido. (…)
A gestação é considerada um período de transição, um evento transformador da vida. A cultura ocidental tecnocrática considera a gestação e o parto como um processo meramente fisiológico, e estabelece as rotinas obstétricas como imprescindíveis para que o processo ocorra sem complicações, deixando clara a visão de que a tecnologia é superior à Natureza. O sentido da gestação como um ritual de iniciação para a vida, se perdeu. Somos levadas a acreditar que nossa gestação é da responsabilidade do médico obstetra, que a nós cabe escutar o que ele tem a dizer e aceitar as decisões sem questionar. Dar à luz hoje se tornou uma façanha para a mulher que quer estar consciente e ser activa durante o nascimento de seu filho.
Durante a gestação, período em que a mulher está emocionalmente vulnerável, é incorporada, inconscientemente, a ideia de que um parto medicalizado traz mais benefícios à mãe e ao seu bebé, pois ambos serão poupados do sofrimento e da dor. É criada a falsa ilusão de que tudo pode ser controlado pela desenvolvida tecnologia médica.
O estímulo à prática de terapias alternativas durante a gestação e parto ainda é pouco difundido. Poucas são as gestantes que durante o pré-natal são orientadas a praticar exercícios para fortalecer o períneo e para diminuir a dor durante o TP e parto, por exemplo. Poucas conhecem práticas alternativas para alívio dos incómodos durante a gravidez, ou que realizam actividades que garantam relaxamento e equilíbrio físico e emocional.
A transmissão das crenças e rituais para o parto na sociedade actual, se baseia num modelo tecnocrático. Quando é chegada a hora do nascimento do bebé, a mulher é levada ao hospital, onde é obrigada a colocar aquela bata verde, imediatamente é iniciado o monitoramento por aparelhos que verificam a vitalidade fetal, é indicado um soro com oxitocina para acelerar o TP, é orientada a ficar deitada e sem comer durante todo o período, é colocada sobre a desconfortável mesa de parto, é realizada a anestesia para aliviar a dor, sem contar que deve estar preparada para a episiotomia. São deixadas lá, sozinhas, entregues a pessoas estranhas, que se dizem muito competentes para acompanhar todo o processo, garantindo a segurança da mãe e do bebé!!! Logo que o bebé nasce é afastado da mãe para que se cumpram as rotinas estabelecidas… É assim que somos preparadas para o parto!!! E achamos tudo isso normal!!! O anormal é querer um parto sem intervenções ou que estas sejam mínimas, é querer o apoio e proximidade de pessoas queridas, é querer acolher seu bebé, é querer ser a protagonista disso tudo e sentir-se vitoriosa e capaz de viver e entender intensamente essa nova etapa da vida…
(…) As mulheres que gerarem e parirem seus bebés com consciência, certamente estarão trazendo ao mundo seres humanos preocupados em lutar para restabelecer um mundo com visão holística, baseados em valores humanísticos e saudáveis como forma de pensar e viver.“
Texto: Viviane Fontes Moradei Coelho (Enfermeira Obstetra)
ONG Amigas do Parto (Brasil)
31 Agosto 2009
Podem ler o artigo completo aqui.
Filed under: Gravidez, Parto Normal/Natural on Dezembro 29th, 2009




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