“Nascer em Portugal – ganhou-se muito. Mas o que se perdeu?”

Reduzimos o nascimento a um acto clínico e isso tem custos. Um nascimento é muito mais do que um parto. O parto faz parte do nascimento, mas não é o seu epicentro. O que está em causa, ou devia estar, é o nascimento. É dele que temos de falar. O nascimento converteu-se em parto na nossa sociedade e às vezes em formas sinistras de parto.

A grande maioria das pessoas que pensa na hipótese de ter um filho não sabe o que é o nascimento. Tal como a maioria dos profissionais que lidam com estas questões.

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Esse momento é de uma transcendência e grandiosidade imensas. Por isso devia ser um momento de intimidade, até de recolhimento. E foi sempre assim ao longo dos tempos, se fizermos uma análise antropológica. Todos os rituais respeitavam a intimidade necessária ao parto. E é necessária porque é a única maneira de haver, logo a seguir, um momento fundamental de contemplação.

Esse momento não existirá se o stress inibir as endorfinas naturais, se a intrusão for mais que muita… Hoje rouba-se, muitas vezes, a intimidade a este momento. E isso é mau. Sou a favor que os partos aconteçam em meio hospitalar, mas o momento é tão solene que se deve respeitar como tal.

Seriam precisos uma série de apoios para se fazer a triagem clara das mulheres que poderiam ter em segurança o bebé em casa. Não há risco zero e não se deve facilitar. Mas também é verdade que nos hospitais se correm os riscos das más práticas, que levam muitas vezes a resultados funestos.

As más práticas têm de acabar!
Não percebo por que razão a Ministra da Saúde, ainda por cima uma pediatra, não deu ainda um murro na mesa para acabar com as práticas que vão contra o que é mais benéfico para a mulher e para o bebé. Os riscos aparecem como justificação para muitas práticas nefastas. Mas são outras, muitas vezes, as verdadeiras razões.

Quando se fala de taxas de mortalidade perinatal para justificar todos as intervenções no momento do parto, deve também mostrar-se o outro lado. Ou seja, todas as outras taxas de riscos acrescidos e de prejuízos reais devido a más práticas. E aqui penso que os académicos têm estado demasiado caladinhos, como se não fosse nada com eles. Parece que nada se passa, ninguém estuda estas questões.

A taxa de cesarianas é obscena
A taxa de cesarianas que temos, muito acima dos 20 por cento, é obscena. No meio privado chega-se a 70 ou 80 por cento de cesarianas. Isto tem riscos. Não é igual nascer de parto normal ou de cesariana. Há diferenças importantes para o bebé e para a mãe. Isto não é dito às mulheres, não se mostra o filme todo, o que considero uma má prática. As mulheres deviam ser informadas dos riscos reais de uma cesariana, de uma epidural, de uma episiotomia.

A taxa de cesarianas nos hospitais privados só tem uma razão e é financeira. O preço de uma cesariana é cinco vezes superior ao de um parto normal. Isto tem de ser assumido!

Devemos tomar decisões informadas e não baseadas em meias-verdades. Uma cesariana é uma intervenção cirúrgica. Ser o utente a pedi-la é inaceitável. Nenhum médico, mesmo no serviço privado, vai tirar o apêndice a alguém que chegue lá e diga que é isso que quer! Tem de haver critérios e têm de ser iguais em todos os hospitais, tal como acontece nas outras áreas da medicina.

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O que nos é roubado: intimidade e o momento de contemplação
É uma decisão pessoal, mas sou completamente intolerante em relação às visitas a seguir ao nascimento de um bebé. É horrível, é preversa a quantidadade de gente que invade a intimidade da família. Toda a gente corre para o hospital, em romaria, pessoas que às vezes estão meses sem ver um amigo doente. É também um fenómeno a estudar. Parece que andamos todos ávidos de bebés. Parasitamos os filhos dos outros e roubamos-lhes momentos cruciais.

É precisamente o que fazem as enfermeiras que pegam no bebé acabado de nascer e o levam sob o pretexto de ter de ser aquecido. Agarram num bebé que os pais não tocaram e dizem «Estão a ver o vosso filho?» É uma coisa sádica. Se tirarmos um gatinho acabado de nascer a uma gata e o colocarmos aninhado junto a uma cadela, é a esta que ele vai apegar-se. E a gata vai rejeitá-lo.

Então porque fazemos isto aos bebés e às mães e pais? Um recém-nascido não corresponde a nenhuma idealização de um bebé. Mas se ele for colocado sobre a mãe assim que nasce, pele com pele, se esse tempo de contacto for respeitado, quando a mãe olhar finalmente para a cara dele, está num estado de êxtase e vai achá-lo o bebé mais lindo do mundo. Se pelo contrário o vê de longe e o levam embora é um choque. «Aquilo era o meu bebé? Credo! Coitadinho!», vai pensar.

Só 15 por cento dos bebés precisam de reanimação após o nascimento. Todos os outros deviam ficar ao pé dos pais naqueles momentos únicos e tão importantes. (…)

Texto: Ana Esteves
Revista IOL Mãe
2010/05/19

Podem ler o artigo completo aqui.

2 Responses to ““Nascer em Portugal – ganhou-se muito. Mas o que se perdeu?””

  1. As más práticas têm que acabar. Subscrevo inteiramente.
    Mas acho que uma das grandes prioridades se prende com a mudança de mentalidades da grávida, que hoje em dia acha normal este tipo de práticas nas nossas maternidades. E são muitas a avaliar pelos relatos de parto que leio cheios de intervenções desnecessárias e encaradas como “normais” e ” desejadas”.
    Temos que nos começar a opôr sériamente. Porque estamos a falar da saúde dos nossos filhos, que são a nossa prioridade.
    Entristece-me que haja tanta obstrução nesta matéria, entristece-me ir a encontros sobre a Humanização do nascimento com 6 ou 7 pessoas, entristece-me que a mudança de mentalidades seja feita quase pela calada e a conta gotas.
    Fica aqui o desabafo de quem apesar de ter tido o seu parto respeitado se preocupa com as grávidas que não o vão ter.

  2. Joana,

    Agradeço o seu comentário e concordo com o que escreveu.

    Infelizmente no nosso país o parto é muito medicalizado, mas o que mais me impressiona (o meu parto foi hospitalar) é a falta de humanização por parte dos profissionais de saúde. A frieza, indiferença e impessoalidade com que uma mulher em trabalho de parto é tratada. Já para não falar das coisas que fazem aos nossos bebés!

    Que pena que em Portugal se reduza o nascimento, um momento tão Importante, Sagrado, Único e Íntimo na vida de um casal, a algo sem magia, vulgar e que precisa de ser curado, como se tratasse de um estado patológico. :(

    Uma pena mesmo que tantos bebés venham ao mundo desta forma.

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