“O tempo do cordão”

A Organização Mundial de Saúde (OMS) há muito que abandonou a recomendação de cortar o cordão umbilical imediatamente a seguir ao nascimento. «O laqueamento tardio do cordão umbilical é a forma fisiológica de tratar o cordão. O laqueamento precoce é uma intervenção que precisa de justificação. A “transfusão” de sangue da placenta para o bebé, se o cordão for cortado mais tarde, é fisiológica e é improvável que tenha algum efeito adverso, pelo menos nos casos normais», pode ler-se no documento «Assistência no parto normal: um guia prático» (Care in normal birth: a practical guide), de 1996.

Segundo o mesmo documento, adiar o corte do cordão traz benefícios para a saúde do bebé, tais como o aumento do volume de sangue rico em oxigénio que passa da mãe para o bebé, através da placenta, e o aumento das reservas de ferro, o que diminui o risco de anemia na infância. Para isso, basta que, depois do nascimento, o bebé seja colocado ao nível da pélvis da mãe, ou abaixo, durante três minutos antes de o cordão ser cortado. Não é tempo suficiente para o cordão acabar de pulsar, mas, ainda segundo a OMS, o processo pode demorar mais tempo sem qualquer prejuízo para a mãe ou para o bebé.

Um estudo publicado na conceituada revista British Medical Journal, em Agosto de 2007, apontou no mesmo sentido. O autor da investigação, Andrew Weeks, confirmou os benefícios descritos pela OMS e concluiu: «Considerando que o corte precoce do cordão umbilical não beneficia a mãe ou o bebé e pode até ser prejudicial», os profissionais devem considerar «introduzir o corte tardio do cordão umbilical nas rotinas do parto».

No entanto, na maior parte das maternidades europeias, as portuguesas incluídas, o cordão umbilical é cortado imediatamente a seguir ao nascimento. A excepção vai para alguns países nórdicos, como por exemplo a Dinamarca, onde se estima que o corte tardio do cordão umbilical seja praticado em 93 por cento dos hospitais.

Porquê a pressa?
A «urgência» em cortar o cordão umbilical surge do mesmo modo que outras práticas interventivas, como a episiotomia ou a administração de ocitocina artificial, que transformaram o parto numa sequência de rituais médicos. Porém, antes pensava-se que o aumento do volume do sangue transferido entre mãe e filho poderia estar relacionado com um maior risco de hemorragias pós-parto e de retenção da placenta para a mãe, e de excesso de bilirrubina no organismo do bebé, cuja acumulação pode causar icterícia. Segundo a OMS, não existem evidências que comprovem nenhuma destas situações.

Teresa Tomé, neonatologista na Maternidade Alfredo da Costa, lembra ainda que outro dos critérios para cortar o cordão logo após o nascimento está relacionado com a incompatibilidade Rh (mãe com sangue Rh negativo e filho com sangue Rh positivo, ou vice-versa). Um problema muito importante no passado, que, hoje em dia, pode ser tratado previamente, exigindo, no entanto, alguns cuidados no parto. Para a OMS, os casos de incompatibilidade Rh e de bebés prematuros são os únicos em que «o laqueamento tardio pode causar complicações». No entanto, uma revisão de sete estudos publicada na base de dados Cochrane, em 2004, concluiu que, mesmo nos partos pré-termo, esperar 30 a 120 segundos antes de cortar o cordão umbilical pode «estar associado a uma menor necessidade de transfusão e a menos hemorragia intraventricular». Teresa Tomé reconhece que «no recém-nascido prematuro, a laqueação após 30 segundos evidencia diminuição de necessidade de transfusão». Ainda assim, o assunto não reúne consenso. «O timing ideal para a laqueação do cordão umbilical é um ponto actual de discussão e enquadra-se numa modificação de conduta na sala de partos, tal como o contacto pele com pele ou ressuscitação com ar ambiente», resume a neonatologista.

Texto: Patrícia Lamúrias
Revista PAIS & Filhos
27 Dezembro 2007

Podem ler o artigo completo aqui.

5 Responses to ““O tempo do cordão””

  1. Adorei a expressão.. “qual a pressa”..

    Realmente não devia haver nenhuma!

  2. Não penso que exista uma urgência no corte do cordão, faz meramente parte das práticas.

    Ou seja é mais PRATICO que seja cortado de inicio para permtiir liberdade de movimentos.

    Não são tão apologistas do contacto pele a pele entra a Mae e o infante? O cordão só dificulta tudo isto, não concordam?

  3. Olá Didier!

    Penso que uma coisa não invalida a outra. O corte tardio do cordão umbilical não vai proporcionar um afastamento do bebé da mãe, antes pelo contrário.

    Se vir alguns dos vídeos que coloco no blog, irá verificar que em muitos deles mãe e bebé estão em contacto pele a pele e o bebé continua ligado à mãe através do cordão.

  4. bom eu começo a achar que este(esta??) didier tem uma vendetta pessoal contra algumas das nossas ideias.

  5. Exactamente o que MJ disse! e de que forma é que o cordão impede esse contacto???

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