“OS RISCOS DA LAQUEAÇÃO PRECOCE DO CORDÃO
Mas para além do risco imediato as tais situações de insuficiência respiratória do bebé ou hemorragia da mãe – é sublinhado no alerta que fazem os especialistas britânicos que ao laquear e cortar o cordão imediatamente após o nascimento, o bebé é privado de uma quantidade de sangue significativa e importante pois contém oxigénio e nutrientes.
Este aspecto é, de resto, aquele que devia merecer maior atenção e reflexão por parte dos pais e dos profissionais de saúde, na opinião de Lúcia Leite, enfermeira obstetra que lidera a campanha «Pelo direito ao Parto Normal»: «A colheita de sangue do cordão implica uma laqueação precoce do cordão e os pais, tal como muitos profissionais, não têm consciência de que isso tem implicações na adaptação do bebé à vida extra-uterina», afirma.
«Só é valorizado o risco de vida, mas há outros aspectos que não sendo tão graves são importantes: se o bebé continua a receber o sangue da mãe através do cordão durante os primeiros minutos após o nascimento, pode fazer-se tranquilamente o contacto pele com pele que é tão importante e o bebé regulariza gradualmente a sua respiração. É um período fundamental e isso pode fazer a diferença entre um Índice de Apgar muito bom ou um Índice de Apgar que inspira algum cuidado», explica a especialista. «A múltipla oferta deste tipo de serviços de recolha e criopreservação das células estaminais e o marketing das empresas que é muito forte fazem com que os pais adiram a este processo, sem fazerem grande reflexão sobre as implicações para o bebé.
Lúcia Leite afirma que existe a indicação, por parte das empresas de criopreservação, para que a recolha seja feita o mais cedo possível após o parto. Claro que isto pode desviar a atenção de aspectos importantes e quebra-se um momento fundamental, pois se a laqueação é precoce, o bebé será levado logo para receber oxigénio. Se o cordão não for laqueado de imediato não existe essa pressa e o bebé poderá fazer o contacto com a mãe e ter um Apgar mais elevado.
Para esta especialista, tal como para o obstetra Daniel Pereira da Silva, a prioridade tem de ser dada ao bebé e à mãe e já lhe aconteceu protelar a recolha por considerar que é benéfico para o bebé. «Acabo sempre por conseguir fazê-la, mas nem sempre será nas melhores condições, e não sei se terá quantidade suficiente de células estaminais», acrescenta. Apesar de nunca lhe ter acontecido, tem conhecimento de um caso em que os pais processaram a enfermeira obstetra que acompanhou o nascimento do filho, por não ter feito a recolha de sangue do cordão.
Numa altura em que, estima Lúcia Leite, perto de metade dos pais optam por fazer a criopreservação, era importante que «tomassem consciência de que esta recolha é um favor que lhes fazemos. A nossa obrigação profissional é assegurar a saúde e bem-estar da mãe e do bebé e essa tem de ser a nossa prioridade».
Importante também é «que sejam informados e reflictam sobre o impacto que a laqueação precoce do cordão pode ter», remata.
SABIA QUE…
- Existem recomendações para que os bebés com menos vitalidade sejam reanimados ainda ligados à mãe, pois dessa forma será mais fácil a sua recuperação?
- O sangue que o recém-nascido recebe através do cordão, após o nascimento, além de oxigénio, tão importante nesses primeiros minutos de vida, dá-lhe uma reserva de ferro para os primeiros meses de vida. Há muitos bebés que têm de tomar suplementos de ferro porque não o receberam.”
Texto de Ana Esteves
Revista IOL Mãe
2011-09-22
Acabei por não fazer a recolha de sangue do cordão umbilical, confesso que tinha pensado em doar ao banco público. Mas com tanta luta ao longo da gravidez para ter um parto respeitado, acabei tão desgastada emocionalmente que esse assunto ficou esquecido. O que não esqueço foi terem cortado logo o cordão que me ligava ao meu filho e terem-no levado.