“Parto na Água”

Popularizado pelo médico francês Michel Odent na década de 60, o parto na água foi, inicialmente, descrito como uma forma alternativa de controlo da dor durante o trabalho de parto. A imersão em água à temperatura do corpo ajuda a reduzir o nível de adrenalina da mulher e estimula a libertação de ocitocina, a hormona-chave do parto. Esta resposta fisiológica leva a uma diminuição da intensidade da dor, ao mesmo tempo que facilita a dilatação. Bem-estar, paz interior e maior controlo da situação são os benefícios descritos pela maior parte das mulheres que experimentam esta forma de dar à luz.

Vários estudos revelam que a utilização da água no nascimento permite reduzir o número de cesarianas, induções de parto, pedidos de epidural e o uso de fórceps ou ventosas. Um trabalho publicado em Janeiro de 2004 no conceituado British Medical Journal (BMJ), que comparou partos dentro e fora de água, concluía isto mesmo e acrescentava que a imersão em água facilita a dilatação inclusivamente nos primeiros partos.

Alguns investigadores não se cansam de referir os potenciais riscos para os bebés. Mesmo depois da publicação de um importante estudo em 1999 no BMJ, que analisou todos os partos na água ocorridos no Reino Unido entre 1994 e 1996. De acordo com os investigadores, em gravidezes sem problemas, os riscos de nascer debaixo de água são semelhantes aos riscos de nascer fora dela. Há, no entanto, vários trabalhos publicados na literatura médica que alertam para possíveis perigos: aspiração da água, danos neurológicos, ruptura do cordão umbilical e pneumonia.

Investigação, precisa-se
A experiência das parteiras do St. George’s Hospital e do Royal Free Hospital, em Londres, vai noutro sentido. A PAIS&Filhos visitou estes dois hospitais públicos britânicos, onde o parto na água é uma possibilidade desde que o governo decretou em 1992 que esta deveria ser uma opção em todas as unidades de saúde onde fosse praticável. Katie Pickett e Amanda Mansfield já ajudaram muitos bebés a nascer debaixo de água e não têm dúvidas de que os riscos para o recém-nascido são semelhantes aos do parto fora de água.

As parteiras referem, contudo, que, apesar de a imersão em água durante o trabalho de parto ser uma opção muito popular no Reino Unido, o número de mulheres que acaba por ter os filhos na piscina de parto é reduzido. «Muitas mulheres sentem necessidade de sair da água para a expulsão do bebé. Precisam de terra firme para poderem fazer força. É uma decisão delas e não nossa», explica Katie Pickett. Atitude que reflecte a forma como estas parteiras encaram o nascimento: a mulher decide.

A realidade inglesa
No Royal Free, explica Amanda Mansfield, 27 por cento das parturientes usam a piscina de parto e 15 por cento dão à luz dentro de água. Mas o parto aquático é apenas uma das concretizações de uma outra forma de assistir o nascimento, assente na ideia base que um parto de baixo risco deve envolver o menor número possível de pessoas e cuidados médicos. A ideia de desmedicalizar o acto de nascer parte do pressuposto de que este é um acontecimento para o qual o corpo da mulher está preparado. Katie Pickett resume: «Quanto mais intervenção houver durante um parto, maiores são as probabilidades de que algo corra mal

A parteira, que apenas assiste nascimentos em casa, outra das opções do sistema de saúde público inglês, que premeia os hospitais que estimulem um aumento dos partos normais e em casa, defende algumas regras de ouro: não apressar o parto, não pressionar a mulher, não interferir. «A minha função é simplesmente estar lá. Por exemplo, não faz sentido mandar uma mulher fazer força. O corpo dela está preparado para lhe dar essa indicação.» Outro dos mandamentos da parteira é o de não interferir na posição que a mulher escolhe para dar à luz. Na maior parte dos casos, acrescenta Katie Pickett, estar deitada, a posição adoptada nas maternidades comuns, não é a que as mulheres, instintivamente, preferem.

Portugal não sabe nadar
Há muitos anos que os benefícios da utilização da água durante o parto são bem conhecidos da moderna obstetrícia, mas em Portugal não existe esta opção*. Falta conhecimento, sensibilidade e, sobretudo, condições logísticas para os hospitais poderem oferecer esta técnica. «Não temos espaço», diz Ester Casal, obstetra responsável pelo bloco de partos do Hospital Garcia de Orta, um dos maiores do país: «Já pensámos no parto aquático, mas não temos logística.» Opinião, que nem todos os técnicos subscrevem. Vítor Varela, presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras (APEO), recusa aquela atitude pessimista. «Não há condições nos hospitais?! Criam-se. Tem de haver inovação e adaptabilidade na obstetrícia

O enfermeiro tece críticas ao modelo de prestação de cuidados português e defende mudanças ao nível da abordagem da gravidez e parto: «Em Portugal, não se olha para o parto como um acto fisiológico, olha-se sim do ponto de vista médico.» Com eventuais riscos à partida e constante necessidade de intervenção. «É um modelo que está esgotado, todas as associações internacionais ligadas à obstetrícia defendem a desmedicalização do parto», sublinha Vítor Varela.

Texto: Maria João Amorim
Revista PAIS & Filhos
14 Março 2007

*Actualmente existe a opção da utilização da água, apenas durante a fase de dilatação, no Hospital São João no Porto e no Hospital São Bernardo em Setúbal.

Podem ler o artigo completo aqui.

12 Responses to ““Parto na Água””

  1. Eu ouvi falar que em Lisboa ia abrir uma clinica que iria fazer partos na água! Alguem sabe alguma coisa sobre isto?

  2. Ana,

    Actualmente, em Lisboa, existe pelo menos uma clínica onde já aconteceram partos na água. Penso que se chama Clínica de Santo António da Reboleira.

    Também já ouvi dizer que vai abrir uma clínica em Lisboa, virada para o parto humanizado, incluindo parto na água, mas não sei pormenores. É esperar para ver! :)

  3. Me too! Mas ouvi falar que ia abrir no Porto tmb confirmam?

  4. Olá Carla!

    Desconhecia que também iam abrir uma clínica destas no Porto. Mas espero que sim; quantas mais melhor! ;)

  5. Olá a todas,

    Não entendo o medo da explusão na água quando deixam fazer tudo o resto antes deste momento.

  6. Para complementar..achei mt interessanto o artigo embaixo:
    http://www.babycentre.co.uk/pregnancy/labourandbirth/waterbirth/whatresearchsays/

  7. Olá Miramar!

    Obrigada pelo link. :)

  8. MIRAMAR, consegue arranjar o artigo traduzido?

  9. Penso que sim, meta aqui o seu mail (com a permissão da MJ claro) que vou ver o que se consegue arranjar. ;)

  10. Olá Miramar!

    Não há problema nenhum, claro que a Diana pode deixar aqui o seu email. ;)

    Penso que até seria uma boa ideia colocar o artigo traduzido num post do blog. Se a Miramar não se importar, também poderia enviar-me o artigo traduzido?

  11. Ora aqui em casa “Portugal sabe nadar” ;) fez-se a dilatação e a expulsão na água. Não poderia ter pedido por melhor experiencia de parto. O meu corpo foi muito generoso comigo perante esta opção.
    Tenho esperança de que esteja brevemente disponível para todas as grávidas que optem por partos hospitalares.
    “Para mudar o Mundo é preciso mudar a forma de nascer”
    Um beijinho a todas e mais uma vez obrigada Maria João pela partilha de informação.

  12. Joana,

    Parabéns pelo seu parto, deve ter sido maravilhoso. :)

    Infelizmente não fui abençoada com a mesma sorte, desejei muito um parto natural, humanizado, num ambiente familiar, mas não foi isso que aconteceu. Ainda estou a interiorizar e a reflectir sobre o meu parto, é muito recente.

    Se quiser enviar o testemunho do seu parto para o email do blog, terei o maior prazer em publicá-lo aqui. :)

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