“Pessoal e intransmissível”

No momento em que uma criança recém-nascida é colocada nos braços dos pais, em paralelo com a tremenda evolução física que a espera nos dias, meses e anos seguintes, arranca também um outro processo que, embora não tão visível nos tempos iniciais, é absolutamente determinante: o trilho que a levará a tomar o seu lugar no mundo. É essa procura que leva o bebé de meses a gatinhar, a criança de três anos a querer comer e tomar banho sozinha, o aluno do primeiro ano a soletrar, o pré-adolescente a formar um grupo de amigos e o adolescente a contestar tudo e todos. O desejo de autonomia é uma das grandes características que nos torna humanos, mas é uma via que se faz em dois sentidos: de nós em direcção a quem nos rodeia e destes para o nosso interior. E é também um caminho que se vai tornando cada vez menos linear.

No mesmo momento em que recebe o seu bebé nos braços, pai e mãe começam, por sua vez, a procurar que tomem forma todos os planos, desejos, anseios e expectativas que, durante os últimos nove meses, foram reunindo em favor daquela criança. Mais não seja porque um filho torna perene a nossa passagem pela Terra e corporiza a continuação do nosso próprio percurso.

Mas o que acontece quando a fronteira entre o que somos e desejamos se esbate no que o nosso filho é e deseja? Ou quando essas fronteiras se confrontam? Se a valorização da autonomia é uma atitude que marca os primeiros anos da vida da criança, que direito temos de a enfrentar quando ela não se desenvolve nos moldes que prevíamos ou que achamos mais correctos?

«Não temos», afirma, muito simplesmente, a terapeuta familiar Catarina Rivero. «Educar é, essencialmente, respeitar o indivíduo, promovendo o espírito crítico e a autonomia», adianta, acrescentando que não pode ser exigido a nenhuma criança que siga um percurso que não escolheu e que cumpra sonhos que não são os seus, «por muito que os pais achem que é o melhor que podem fazer por ela».

«Não é a primeira, nem será a última vez, que um pai ou uma mãe entra no meu consultório e diz algo semelhante a ”doutora, veja o que se passa com o meu filho, não quer fazer nada do que é bom para ele”. E depois, bem vistas as coisas, o que aquele pai e mãe estão a fazer é não dar qualquer hipótese à criança ou ao jovem de fazer ouvir a sua voz. E o resultado passa, muito frequentemente, ou pela contestação ou pela aceitação mais ou menos passiva da situação, até ao ponto de ruptura».

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Para a psicóloga Maria João Santos, «dar a conhecer todas as possibilidades de desenvolvimento pessoal é tarefa dos pais», mas esta missão começa a perder sentido a partir do momento em que os sonhos e expectativas parentais se sobrepõem ao que deveria ser um processo de auto-descoberta.

Numa sociedade que valoriza os sinais de sucesso e altamente competitiva, os adultos «procuram facilitar e orientar os filhos na direcção do êxito, sem muitas vezes se aperceberem de que lhes estão a negar a importante ferramenta de saber fazer escolhas e arcar com as consequências, sejam elas boas ou más». Em suma «eles não têm espaço para descobrir, porque os adultos já descobriram tudo por eles».

Quem não sabe optar, porque sempre teve alguém que o fizesse por si «não tem capacidade para lidar com a tristeza e a frustração que, mais tarde ou mais cedo, nos batem à porta» diz, por seu turno, Catarina Rivero, para quem a cultura de tentativa e erro faz igualmente perceber «quais são as nossas fragilidades e potencialidades, quando podemos trabalhar sozinhos e quando devemos pedir ajuda. Em suma, permite que nos exploremos e conheçamos mais solidamente».

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«É saudável e desejável que projectemos nos nossos filhos alguns dos nossos objectivos e desejos, mas já não é bom que cultivemos o nosso próprio status através da parentalidade», adverte Catarina Rivero. «De nada serve insistir para que as crianças se desenvolvam num dado sentido se esse caminho não estiver apoiado em sólidas competências sociais e emocionais. E apenas elas as podem conquistar, embora nos caiba, sempre, orientá-las e fornecer-lhes a matéria-prima afectiva. São esses os limites da autoridade», frisa a terapeuta. Autoridade essa que passa por descobrir onde está a fronteira entre a necessária orientação e a ainda mais necessária liberdade. «Inúmeros pais fazem de tudo para que os filhos não caiam e não se enganem, em suma, não sofram nunca», o que, paradoxalmente os pode levar a «pactuar com situações impostas e pré-formatadas que os angustiam profundamente», refere Maria João Santos. Tal não significa que, em contraponto, se promova uma cultura familiar «em que se desiste dos projectos à primeira dificuldade e sob qualquer pretexto. As vocações muito definidas não acontecem a todas as pessoas e a maior parte de nós tem de persistir até encontrar um patamar que nos satisfaça, seja no campo académico, laboral, desportivo ou outro», adianta. «O lado positivo desta atitude firme é fazer a criança perceber que a auto-disciplina também é necessária e que na vida não vão encontrar muitas situações em que tudo é à vontade do freguês».

Abertura e optimismo
A chave desta complexa equação parece estar, assim, nas características dos laços que unem a família. «A questão básica é a da relação que existe entre pais e filhos. Se ela tem por base modelos anteriores demasiado rígidos, pode acontecer uma de duas coisas: os pais decalcam esses modelos ou rebelam-se contra eles», afirma Maria João Santos.

«Seja o que for que aconteça, o melhor que pode acontecer é que esta ligação tenha por base um profundo conhecimento mútuo, confiança total, uma cultura de diálogo precoce e permanente, autoridade– não autoritarismo – e a capacidade para dar a escolher opções adequadas a cada idade».

«É bom que consigamos partilhar com a criança ou o jovem os nossos valores e decisões, mas também as nossas hesitações e dúvidas», defende, por seu turno, Catarina Rivero, para quem o grande papel da família consiste em procurar o equilíbrio entre «a protecção e a autonomia». Se, entre pais e filhos «existirem hábitos de proximidade afectiva, essa partilha ajuda a pesar todos os prós e contras de qualquer situação, respeitando a individualidade de todos», conclui.

Texto: Elsa Páscoa
Revista PAIS & Filhos
17 Maio 2010

Podem ler o artigo completo aqui.

6 Responses to ““Pessoal e intransmissível””

  1. Adorei o artigo!
    Será que a nossa MJ esta de férias? se esta foram mereceidas BJS!!

  2. Guilda, quase de certeza que a Maria Joao foi de férias, costuma postar com muita frequencia.
    Beijos para todas as Mães RM!

  3. Olá Giida e Mãede6! :)

    Por acaso não fui de férias, ando por aqui. ;)
    Mas agora tenho que me preparar para o acontecimento mais importante da minha vida e isso também requer muita introspecção, recolhimento e alguma logística. :D Por isso decidi dar um tempo ao blog RM, uma vez que também exige pesquisa e dedicação da minha parte. Peço desculpa pelo facto do blog ficar algum tempo sem tópicos novos, mas pelo menos sei que as (futuras) mamãs têm aqui muita informação. :)

    Beijinhos e obrigada por continuarem a seguir o blog RM!

  4. Parabéns!!! :D :D

  5. que noticia maravilhosa!! fiquei tão feliz, boa sorte amiga!

  6. Olá Nadia, obrigada! :D

    Querida Mãede6, obrigada pelo seu comentário! :D

    Beijinhos

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