“Ritual de coroação”
“(…) Sente-se um alívio gigante quando, no meio das dores e do cansaço, alguém nos diz: «Já se vê a cabeça do bebé». Parece mentira. Um boa notícia, finalmente. Uma recompensa pelo esforço contínuo de há duas, sete, 12, às vezes 24 horas. (…)
Estamos na recta final da segunda fase do trabalho de parto, o período expulsivo. Esta fase pode durar, no total, entre meia hora e duas horas (mais tempo nos primeiros filhos, menos tempo nos restantes). Começa quando a dilatação está completa, ou seja, quando o colo do útero chega aos 10 centímetros. Muitas vezes, é só nesta fase que rebenta a bolsa de águas. Outras vezes (embora raramente), o bebé até pode nascer dentro da bolsa, que se rompe nessa altura.
No período expulsivo, as contracções tornam-se mais prolongadas e sucedem-se cada vez mais rapidamente. Surge uma vontade incontrolável de fazer força (idêntica à vontade de ir à casa-de-banho) que resulta do saco amniótico ou parte dele avançar pelo colo do útero dilatado e fazer pressão no recto. Cada mulher deve seguir o seu instinto e fazer força quando e como quiser. Mas não é aconselhável fazer força antes de a dilatação estar completa, para não desperdiçar energias, nem rasgar o períneo.
O normal, nesta fase, é que, em cada contracção, se sinta vontade de fazer força três a cinco vezes (durante quatro a seis segundos). As contracções são intensas e focam-se na zona abdominal, lombar e pélvica e às vezes também nas pernas. (…)
A expulsão
Nem sempre a mulher consegue sentir que a cabeça do bebé já desceu. Por isso, é bom que alguém lhe diga que ela está mesmo ali, que faltam apenas mais duas ou três contracções para ter o bebé nos braços. Se estiver de cócoras ou sentada (as posições que mais facilitam o nascimento), a mulher pode pedir um espelho e ver a primeira nesga do seu filho ou pode esticar a mão e tocar-lhe. É absolutamente maravilhoso e dá a energia necessária para a próxima contracção. Como se fosse um impulso reflexo, imediatamente o corpo transforma-se numa onda gigante que rebenta na zona pélvica. A vontade de fazer força é agora maior do que nunca. Sente-se uma sensação de estiramento e de ardor na abertura vaginal. Chamam-lhe o «anel de fogo». A espessura do períneo é reduzida de aproximadamente cinco centímetros para menos de um centímetro. Depois do parto volta ao normal.
A passagem da cabeça do bebé pela pélvis só é possível porque o seu cérebro é extremamente macio e flexível. Além disso, os ossos do crânio estão divididos em placas separadas, cada uma capaz de se sobrepor ligeiramente sobre as outras. Características que permitem que a cabeça do bebé seja comprimida e moldada ao passar pelo estreito canal de parto. Ainda assim, o bebé pode nascer com a cabeça mais ovalada, mas uns dias depois essa forma desaparece.
A cabeça do bebé atravessa então a vagina e passa para o lado de fora. Ao mesmo tempo é expelida uma grande quantidade de líquido amniótico, como se fosse um jorro de água. Alguns médicos ajudam a cabeça a sair, dando um corte no períneo – a episiotomia. Em certos casos, pode ser necessário usar fórceps ou ventosa, especialmente se o parto já estiver muito prolongado e a mãe muito cansada. Mas, na maior parte das vezes, é possível esperar e deixar que o períneo se distenda gradualmente, ajudando a evitar lacerações. Manter a tranquilidade (tanto a mãe, como todos os que a rodeiam) é essencial para que este processo possa decorrer devagar, nos tempos certos. (…)
Com a cabeça do bebé já deste lado, a mãe pode descansar mais um pouco. Respirar fundo. Recuperar energias. Neste momento, o bebé está com o rosto virado para baixo, olhos fechados, pele muito vermelha ou arroxeada. Também pode estar com o rosto virado para cima e, assim, é mesmo necessária ajuda médica, pois o bebé terá mais dificuldade em fazer o movimento de rotação que lhe permitirá expulsar o resto do corpo da barriga da mãe.
Se estiver na posição certa, na maior parte dos casos, espera-se que o bebé decida avançar. Novamente, se a mãe lhe tocar na cabeça pode ganhar um fôlego extra, o último necessário para esta tarefa tão árdua quanto gratificante. Com a próxima contracção, e empurrado pela força da mãe, o bebé roda 45 graus, como se fosse uma espiral. Sai um ombro, depois outro e rapidamente o corpo todo está cá fora. Uma sensação de maciez passa pelo massacrado períneo, como se fosse uma massagem de agradecimento. Esta sensação deve-se ao facto de a pele do bebé estar coberta com uma matéria gorda chamada vérnix (verniz). Uma espécie de lubrificante da pele que o ajuda a escorregar pelo canal de parto. Este verniz tem uma cor esbranquiçada, que resulta da mistura de uma substância gordurosa produzida pelas glândulas sebáceas e das células de descamação do feto. Depois do nascimento, serve como camada isoladora para proteger o bebé da mudança de temperatura e como barreira defensiva de infecções ligeiras. (…)“
Texto: Patrícia Lamúrias
Revista PAIS & Filhos
17 Fevereiro 2010
Podem ler o artigo completo aqui; achei-o muito elucidativo.
Filed under: Parto Normal/Natural, Trabalho de Parto on Fevereiro 18th, 2010





Reconheci muitas coisas que foram escritas. Tive o meu primeiro parto normal 20 meses após uma cesariana, o que já por si se torna num parto de risco. Estive +/- 36h com contraccoes fortes, um dia inteiro com contraccoes sem dilatacao, mas sinceramente nao me lembro bem desse período. O que me ficou bem gravado na memória foi a expulsao: quando senti que tinha de fazer forc,a ninguém me impediu, a enfermeira só me lembrava para eu fazer a respiracao devidamente, o meu marido, que esteve o tempo todo ao meu lado foi quem me disse que já via a cabecinha e até tocou (e eu tb, é claro!) nunca mais me esquecerei da felicidade com que ele me disse que já o via. E sim, o entusiasmo do meu marido foi o que me deu a ultima forc,a para a expulsao. A enfermeira teve muita, mas mesmo muita paciência. Nao sei quanto tempo durou a expulsao, mas foi uma pequena eternidade.
No texto diz que só se deve fazer forc,a quando a dilatacao já está feita, mas como é que se vê se a dilatacao está feita? Nao acho que essa altura seja apropriada para fazer um toque. No meu caso foi feito o ultimo toque aos 7 cm, foi quando se viu que eu finalmente, ao fim de mais de 24h com contraccoes estava a fazer a dilatacao. Depois nao se voltou a controlar nada. E ainda bem.
Seja como for, apesar de ter sido um parto de risco pela cesariana anterior, apesar de ter sido um parto provocado (por ter diabetes e injectar uma quantidade imensa de insulina que poderia, ou nao, afectar o bebé), apesar de eu ser pequenina e magrinha (1,60m 45kg) o meu filhote saiu saudável com os seus 3.700g e eu nem rasguei o períneo, nao precisei de levar nemm um pontinho.
bjos e bom parto!
Querida Jessica,
Que bom ver-te por aqui!
Obrigada por partilhares o teu parto connosco, é um lindo testemunho.
Gostaria muito de colocá-lo num tópico do blog, importas-te?
Beijinhos muito grandes para ti e para a tua linda família
Olá
Claro que podes usar o meu testemunho no blog.
Porém o que escrevi nao conta toda a viagem que foi o parto. Acho que tb é importante mencionar que apesar de eu aguentar as dores, apesar de eu ter comido e bebido à vontade durante o parto, apesar de ter sido dona da minha vontade e ter podido escolher o que fazer durante o parto, o facto de ao fim de 1 dia de contraccoes fortes e nao fazer dilatacao (tinha apenas 2cms) deixaram-me muito em baixo e pedi a famosa epidural. Sei que o efeito durou 2 horas, no final pedi para me fazerem o toque e realmente naquelas duas horas em que me consegui relaxar tinha feito a dilatacao até aos 7cm. Daí a sentir vontade de puxar já nao durou mto tempo. Por mais que critiquem a epidural, muito provavelmente foi esta que me salvou de mais uma cesariana. Nao a pedi por nao aguentar as dores, pedi porque achei que tinha chegado um ponto em que eu precisava de descanso, e realmente consegui juntar forc,as para mais uma etapa de parto. Durante a expulsao a epidural já nao fazia qualquer efeito, senti tudo e lembro-me perfeitamente do ardor que é descrito no artigo, lembro-me de implorar à enfermeira para o arrancar de dentro de mim (sim, foram estas as palavras), e ela dizia-me que eu estava a fazer tudo mto bem, que ele saíria apenas com a minha forc,a e voltava a lembrar-me para fazer bem a respiracao. A expulsao foi feita deitada virada de lado porque o meu filho nao se encontrava na posicao normal para sair, quando a cabecinha dele saiu a enfermeira teve de ajudar a fazer a rotacao do corpinho para sair. Ah! e nasceu com o cordao umbilical à volta do pescoc,o!
E acreditem ou nao,ao fim de duas semanas a nossa vida sexual voltou ao normal
bjos e desejo que tudo corra bem ctg!
Jessica
Jessica,
Muito obrigada por permitires que coloque o teu testemunho no blog.
Posso juntar toda a informação que escreveste nos 2 comentários e reescrevê-la num tópico. É que de facto é um dos testemunhos mais inspiradores que já li, principalmente se tivermos em conta que tiveste uma cesariana 20 meses antes do teu 2º parto.
Se preferires também podes enviar-me um único texto para o email: info@rituaismaternos.com
Em relação à epidural, entendo o que queres dizer e penso que quando bem utilizada, como foi no teu parto, pode ajudar a mulher sim.
É um recurso que deverá estar disponível, mas na minha opinião, não deverá ser usado levianamente.
Obrigada por te lembrares de mim.
Beijinhos
Desculpa, só consegui responder agora, já vi que já postaste. Ficou um pouco confuso, mas acho que dá para perceber a mensagem principal. Nao foi um parto perfeito, mas eu nao mudaria nada.
Aliás só lá fiquei para que a glicémia do E. fosse controlada por causa das diabetes. Como estava tudo OK deram-nos logo alta.
Nao queria levar a epidural, até porque sou uma pessoa que aguenta bem dores, mas cheguei a um ponto em que pensei ou a epidural ou eu nao terei mais forc,as quando chegar a altura, e nao me arrependo nada. Após o parto adormeci na sala de partos com o E. ao colo.
Poucas horas após o parto já eu andava pelo hospital toda fresca, e no dia seguinte ao parto tive alta
bjos!!
Olá Jessica!
Desculpa ter postado o teu testemunho logo no dia seguinte, mas não resisti.
Eu não achei confuso, espero que as leitoras do blog também não.
Continuo a dizer que para mim é um dos testemunhos de parto mais inspiradores que já li. E mais uma vez agradeço teres partilhado esse momento tão especial comigo e com as leitoras do RM.
De qualquer modo se preferires posso editar o tópico e fazer as alterações que quiseres.
Beijinhos